sábado, 14 de setembro de 2013

*vooosh*

Quanta poeira, credo. Não posto nada aqui há séculos. O motivo? Ahn, bom, vários. Fazem três anos que sou um recém adulto. Eu mesmo lendo o que eu mesmo escrevi é bizarro. To aqui, vendo Florence via streaming ali no cantinho pelo site da Multishow, do Rock in Rio que eu queria ter ido só pelo Muse, mas não fui pq eu tenho medo de multidão e outros mimis que eu tenho que me impedem de curtir essas experiências.
Eu sempre digo que só enfrentaria uma multidão se fosse para ver o Mika. Hahaha!
De qualquer forma, estou numa semana ruim, de obra intensa. Meu banheiro não existe, meu quarto tá uma merda pois os móveis foram montados errados, minha gata está doente e meu PC não é tão foda como eu achava quando o comprei.
Nesses ultimos dias fiz duas amizades muito especiais. Dois camaradinhas, um recém-guei e um hétero mente aberta, e gostaria de falar sobre isso agora.
Esse hétero me mostrou que existe esperança no mundo XD Encontrei nele um amigo que me atrevo a dizer que parece que o conheço há um tempo. Mal o conheço na verdade. Mas a simpatia dele me fez gostar dele gratuitamente. Isso foi bom.
Também conheci um amigo guei. Tá saindo do armário lentamente. Outra surpresa na minha vida chata. Esse menino com sotaque engraçado já entrou pro meu hall de grandes amigos.

Mas aí vem a frustração.
O motivo? Insegurança. Sempre. Faz parte de mim. Querer significar algo, querer ser algo, a necessidade que eu sempre tive de me encaixar em algum lugar. Só que o problema é esse, eu não me encaixo em lugar nenhum.

Esse texto não é pra ser depressivo, não mesmo. É pra ser qualquer coisa que eu queira dizer. Desde minhas ultimas experiências na faculdade (devastadoras) e todo o mais. Só queria escrever isso que sinto, e desejar que eu não caia na mesma armadilha escrota de novo. Eu quero aprender a sentir as coisas como elas realmente são.

E é com esse texto zuado que eu começo tudo de novo. Outro ciclo. Ou tentar, pelo menos né. Qualquer coisa serve. Sempre foi qualquer coisa. Vai continuar a ser. Esse aqui sou eu, pra quem quiser ler. Não ligo.
Vumbora fazenu


sábado, 23 de junho de 2012

Outro Hiato XD

Eu adoro ficar séculos sem postar aqui, né? XD
Acho que é tudo uma questão de hype.
Hoje eu to com várias realizações. To cursando a faculdade que queria, to com um namoro estável, ainda to pobre mas to dando uma analisada nisso. XD
Vou continuar o conto que eu comecei e voltar a postar outros. XD
Bjs

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Meu Pai é a Minha Mãe (parte I)

O MEU PAI É A MINHA MÃE

Inspirado em fatos levemente reais

Existem todos os tipos de gostos no mundo. Quando eu digo todos os tipos, eu quero dizer, todos os tipos mesmo. Em todos os níveis, em todos os departamentos.

Essas modalidades não tem explicação racional. Alguns psicólogos tentam desesperadamente encontrar padrões na mente humana que explique, por exemplo, por que existem pessoas que só conseguem dormir com os pés para fora do edredom, mesmo que esteja fazendo um frio intenso no quarto.

Não, não, isso não é um texto dissertativo-argumentativo, nem nada didático... isso são apenas os meus devaneios, as idéias idiotas e malucas que compõe o meu cérebro deformado de adolescente.

A história que eu vou contar não aconteceu comigo, aconteceu com um amigo de um amigo meu, e é interessante justamente porque aborda de uma forma bem específica os limites doentios do cérebro humano.

A história se passa em Campos dos Goytacazes, uma cidade no interior do Rio de Janeiro, uma cidade cuja sua maioria troca a sílaba do “l” por “r”, não consegue compreender a diferença entre a película de novela e película de cinema, não tem o hábito da leitura (a não ser que seja aquelas revistinhas “Minha Novela” em que TUDO o que acontecerá é revelado, e por algum motivo misterioso, todo mundo compra), entre outras características peculiares. Na cidade, existe uma ruazinha no centro chamada 21 de Abril, uma rua pequena, cercada de prédios velhos caindo aos pedaços, e personagens sociais bem específicos.

Xavier passava por aquela rua numa noite quente. Por mais que o céu estivesse nublado, o mormaço quente se recusava a sair da atmosfera e como conseqüência disso ocorriam o vencimento de centenas de chapinhas e ressecamento de peles alheias; A medida em que se embrenhava na escuridão sutil das construções pós-coloniais abandonadas, ele foi avistando ao longe os vultos em que encontraria o seu propósito.

A primeira era alta, tinha os cabelos longos, loiros, até a cintura. Usava um vestido curto, até um palmo abaixo da virilha, e um tomara-que-caia com um decote exagerado, exibindo dois pares de seios do tamanho de bolas de futebol de brinde de festa junina de escolas particulares. Os lábios de sua boca pareciam lábios de uma vagina em pleno ato sexual, e sua maquiagem... bom, vamos só comentar que era muito bem trabalhada.

— Oi, Katyleiny. — Xavier parecia seco. Katyleiny virou-se abruptamente, acompanhando com os olhos o delay de seus cabelos gigantes contornarem seu pescoço.

— Nossa, que susto, gata! Achei que fosse um desses faveladinhos virgens que realmente acreditam nos coleguinhas quando eles dizem que isso aqui é frenquentado por prostitutas mulheres.

A risada de Katyleiny irritava Xavier. Na verdade, a risada de todos eles... elas... ele/as irritavam Xavier. Assim que as outras travestis perceberam que tratava-se de Xavier, um grupo de cinco cercou-o em meio às suas risadas histéricas e jogadas de cabelo desnecessárias.

— Mas oram vejam, está uma delicinha hoje, hein Xaxá! — Gritou uma, em meio aos berros agudos das outras.

— Já ta com pentelho, Xaxá? Deixa a titia ver aqui... — E foi nessa explosão de gritaria, que uma voz ecoou mais alto do que todas.

— PAREM COM ISSO, PORRA!

Todas elas, ao mesmo tempo, viraram suas cabeças e observaram com o canto do olhos seus cabelos fazendo a curva até parar sobre seus ombros. Xavier teve náuseas, mas ficou contente por ele ter chegado logo.

— Tome, pai. Trouxe sua janta. — Xavier levou até a travesti que gritara uma marmita. As outras, em meio à sussurrinhos obscenos, foram se distanciando, enquanto Xavier aproximou-se, com toda a expressão de desgosto que um adolescente cujo pai é travesti e se prostitui num beco escuro de uma cidade de interior é capaz de sentir.

— Obrigado, filhote. — Aquela era Djeanny, com cabelos curtos, azuis, e vestido tão vulgar como todos os outros, estou com um pouco de preguiça de descrever — Sua aula acabou cedo, hoje.

— É, espero também que seu emprego também acabe cedo.

— Não sei ainda, Xá, depende muito...

— Quantos?

— Quantos o quê?

— Quantos clientes, mãe. Pai, pai, desculpe.

— Oito até agora.

Puta que paril, pensou Xavier, isso é humanamente possível?

— Acho que já ganhou o suficiente, né...

— Estou esperando um cara que sempre vem nesse dia... ele é ótimo, me paga bem e me leva num motel caro. — Riu, e tragou um pouco do baseado — Quer?

— Não pai, eu não uso drogas.

— Claro que usa. — E deu outro trago — Eu sei que você é viciadíssimo em Clonazepam.

Enfim, agora eu vou indo antes que suas colegas me estuprem.

— Fique calmo, elas apenas estão com fogo no cú porque não arrumaram bofe ainda. — E riu. Xavier suspirou fundo, deu as costas e saiu andando.

Mas...

Por um milésimo de segundo, desejou ter uma peruca só para jogá-la poderosamente no ombro na hora de sair, afinal, era assim que se ganhava respeito naquele meio.

E antes que lhe venha na mente questionamentos sobre a sexualidade de Xavier, eu vou logo adiantando: O menino era hétero. Ah, se era. Isso não significa necessariamente que ele transava de fato. Passava horas da noite vendo vídeos de mulheres soltando fogo por suas cavidades excretoras, isso de alguma forma o excitava muito. Existia, sim, como na vida de qualquer jovem de dezoito anos, a mulher que ele sempre imaginava junto. Mas Melissa simplesmente o via como melhor amigo gay.

— Eu não sou gay, Melissa. — Xavier dizia.

— Claro que é, Xá, só você que não sabe disso ainda.

— Hey Xá, quer um chá? — Ninguém riu. — Nossa, eu sou simplesmente genial.

Gui veio trotando até Melissa e Xavier, sentados no lugar de sempre no colégio. Rezava a lenda que, se Gui se jogasse exatamente no centro do pátio, as duas pontas da escola iriam se colidir no ar.

— Você é gordo. — Xavier retrucou.

— E não dá no mesmo? Não tenho beleza física, então Deus compensou na minha inteligência.

— Deus não existe, Gui.

— Claro que existe, Xavier pseudo-ateu!

— Se existisse meu pai não seria um traveco.

— Hmmm. — Gui sentou-se, fazendo todos no chão saltarem alguns milímetros da terra — You got a point. Enfim. Mel, o que temos para hoje?

— Não sei. Poderíamos ir para a sua casa assistir os novos episódios de “Terra Nova”... Ou poderíamos fazer uma competição de Charles Dickens e ver quem termina Oliver Twist primeiro.

— Nossa, tentador. Você tem um exemplar de Oliver Twist em casa, Café? Xá, quer dizer, Xá...

— Há, há, há. Você me mata de rir.

Xavier não riu.

— Tem ou não tem o livro, Coxuxo? — Xavier achava a coleção de movimentos sutis da boca de Melissa quando ela pronunciava aquele apelido completamente ridículo e homossexual a coisa mais linda do universo.

— Não, Mel, acho que esse eu emprestei pra alguém... Sei lá.

— Cara. — Gui descruzou as pernas e trocou de posição. Todos ficaram alertas, mas nada aconteceu — Eu sei que você sempre foi apático e chato de propósito só para se sentir diferente e se auto-afirmar superior, mas... hoje você está ligeiramente pior.

— È o meu pai. Ele pediu que eu fosse o acompanhante dele na Parada do Orgulho GLBT da cidade.

No fuckin’ way! — Gui exclamou, mordendo um sanduíche de atum que nenhum dos dois tinha a menor idéia de onde ele havia tirado. *

— O pior vem agora: A parada vai ser em Guarús.

Pausa dramática agora. Para vocês entenderem o impacto que existe quando alguém fala sobre Guarús, ou melhor, quando alguém diz que vai fazer algo em Guarús, preciso deixar claro alguns fatores importantes:

A cidade de Campos dos Goytacazes era cortada ao meio por um rio, o Rio Paraíba do Sul (Não existia nenhum Rio Paraíba do Norte, mas quem se importa? Acho que o nome simplesmente soou legal na época). Por questões físicas e biológicas, as pessoas que tinham tendências genéticas a serem mais ricas resolveram ficar do lado de cá, enquanto a ralé ficou do lado de lá. Conclusão: 300 anos depois, Guarús era apenas um local de gente absurdamente pobre e sem cultura. (desde já deixo claro que isso é apenas a opinião pessoal de Xavier, e como ele é fictício, a opinião também, logo, não estou ofendendo ninguém).

Para um garoto cuja vida social online era mais significativa do que a vida social na vida real, acompanhar o pai – que era travesti – em uma parada para defender os direitos dos homossexuais – onde isso era a única coisa que eles não faziam – era simplesmente um absurdo, podendo até tirar todo o ânimo dele de reler, apenas por distração, os comentários em áudio transcritos do terceiro filme da franquia Senhor dos Anéis de Peter Jackson.

Xavier foi para casa e ligou seu computador; A sala de chat que ele participava chamava-se Queengdom, ou QD, simplesmente porque isso era o mais longe que uma piada machista de um nerd conseguia chegar. Seu nickname era Fantástica Criatura Mágica da Floresta, pois sua conta havia sido criada quando ele tinha apenas treze anos.

...

É claro que ele se odiava por isso. Os outros membros, devido ao nick grande demais, o chamavam de ALF, por conta do seriado Alf – O Eteimoso (tradução bizarra do SBT) em um episódio em que ele mente para uns guardas-florestais dizendo ser uma criatura da floresta.

>>

AbelhaRainha: Saka soh quem entrou rs

Gui: chegou em casa jah, alf? Foi bem rápido dessa vez

Queen_Mel acabou de entrar.

Alf: Não enxe por favor. Sinto-me indisposto. Não agüento mais conversar assuntos desnecessários com vocês, pessoas cujos rostos eu desconheço.

Brusa: ????????????/

Queen_Mel: Alf, já falei que o Aurélio NÃO É UM LIVRO MAINSTREAM.

Alf: Desculpe, não fui eu. Foi o meu Eu Lírico.

Gui: Meu Deus, Alf. Mestre!!!!!!!!!!!

Brusa: I don’t wanna live in this planet anymore.

<<

***

Xavier acordou babando em cima do teclado do seu computador. O chat rolava solto sobre algum assunto relacionado com política esquerdista na Suécia, e ele desligou o botão, mergulhando seu quarto numa total escuridão. Pegou debaixo do seu travesseiro uma foto da sua mãe, Fátima, e ficou admirando-a na penumbra. Não tinha ninguém olhando, então ele podia chorar em paz.

Não é que ele não amava seu pai, apesar deste ser um travesti; Ele apenas sentia muita falta da mãe. Ela havia falecido tinha mais ou menos uns nove anos, eu não lembro de cabeça, por conta de uma pneumonia. Seu pai, na época já era travesti, ficou o tempo todo ao lado dela, mas quando a perdeu, chorou lágrimas de sangue. Eles sempre foram amigos, e haviam decidido ter um filho juntos quando ainda eram novos, mesmo que Djeanny, ou Diego, sempre soubera que iria ser mulher.

Xavier fungou, pegou uma cartela de clonazepam e engoliu.

Só foi acordar no dia seguinte.

Desceu, ainda meio tonto, sem saber se o sonho em que ele era uma peça de Tetris desmoronando em cima de várias outras era real ou não, quando viu seu pai usando apenas roupa íntima feminina na cozinha, preparando um café da manhã, e teve um choque de realidade.

— É hoje! — Djeanny exclamou, ao ver o filho — Nossa, estou completamente entusiasmada! Já pensou no que vai usar, filhote... que cara é essa?

— Pai, eu não quero ir. — Xavier disse, sentando-se na mesa da cozinha — Sério, eu não iria suportar. Por favor. Liga pra um desses homens ricos aí que você pega e me deixa ficar aqui.

— Xaxá... — Djeanny corou — Eu achei que você fosse curtir. Eu... eu só queria dividir esse momento com você.

— Não se faça de dramático, pai.

— Você que ta fazendo a linha dramática, Xaxá. E a linha egoísta. — Djeanny sacudiu sua cabeça careca, sem peruca — Mas tudo bem. Fica em casa. Eu só achei que meu filho fosse mente aberta o suficiente para se divertir comigo. Ta achando o quê? Que eu ia te largar lá pro primeiro homem que aparecesse? Fico triste em saber que você, Xavier, não me conhece mesmo.

Djeanny saiu da cozinha, indo em direção à porta da sala, quando Xavier suspirou e gritou:

— Ta, pai, eu vou!

Djeanny parou abruptamente, deu uma meia volta e gritou histericamente.

— Ótimo! — Xavier ficou chocado — Agora que já está tudo resolvido, preciso ir na casa de Jussara Marya pegar meu perucão roxo. Custou uma fortuna! Quando der duas horas estarei em casa, e a gente vai direto pra Guarús, combinado?

— Ta. Só vou na casa da Melissa como Gui levar uns dvds e já to voltando.

— Ta. Tchauzinho! — Disse, e sumiu flutuando pelas plantas da varanda. Xavier levou as mãos à cabeça, desesperado.

É por isso que eu não acredito em você, Deus.

Mas saiba que eu existo, e resido aqui no teu interior, e cuido de você e falo por você, quando me é dado a oportunidade...

Você não é Deus. Você é só o meu Eu Lírico.

Dá no mesmo, creio eu... Jovem Xavier. Seu pai é um ser humano como nós. Tudo que ele deseja é dividir com você um momento que ele considera importante para ele, exatamente quando você fazia sua mãe o acompanhar nos Eventos de Manga que aconteciam naquele lugar fétido chamando... Como era mesmo o nome?

Ellaballë?

Exato. Meu Senhor, esse nome é absurdamente inadequado... de todo modo, não irá lhe custar nada acompanhar o seu pai.

É. Acho que não. Vou tentar convencer a Melissa e ME acompanhar. Quem sabe lá eu não consigo convencê-la de que não sou gay e que tudo que eu mais quero é chupar a bocetinha dela que deve ser simplesmente maravilhosa e...

— Continue, Xavier. Estou achando isso tudo realmente intrigante.

Xavier gritou, e com seu grito veio um susto, e com um susto, um tombo, e com o tombo, a risada ofegante de Gui, debruçado na bancada da cozinha americana.

— Não sabia que você tinha a palavra “bocetinha” no vocabulário, Xavier. Ainda mais a da Melissa.

— CALA. A. BOCA.

— Ta, ta! Eu finjo que não escutei nada. — Gui riu, maliciosamente, e Xavier percebeu que ele o chantagiaria com isso até o final de sua vida — Vamos logo, a Mel ta esperando.

— Eu... — Xavier estava ofegante — Preciso de um banho.

— De uma punheta você quer dizer, né?

— GORDO DE MERDA, fala mais alguma coisa que eu te faço emagrecer com um soco!

Os olhos de Gui brilharam.

— Você não seria assim tão bom comigo.

Xavier esbofeteou a própria testa.

— Enfim, Gui. Volto já.

Xavier terminou seu banho, e logo depois ele e Gui caminharam até a casa de Melissa. No caminho, foram conversando sobre algum assunto genérico qualquer, até que foram surpreendidos por um grupo de rapazes musculosos, semi-nus com bonezinhos e bermudas caras.

— Olha lá, Miguel! Os filho do traveco e o namorado gordo!

E todos riram. Xavier e Gui pararam, pegos de surpresa.

— Eaê, seu gay! — Berrou Miguel, se achando o máximo, enquanto os outros gargalhavam com ele.

— Olha, Miguel, eu adoraria brincar disso com você, mas eu realmente estou com pressa...

— Cala a boca, seu gay! Ta com medinho, é? — E mais uma vez, gargalharam. Xavier e Gui os ignoraram e começaram a passar por eles, sem dar atenção, até que um disse algo sobre Djeanny.

— Vou lá comer a boceta da sua mãe.. quer dizer,do seu pai! — Os amigos de Miguel se comportavam de um modo ainda mais retardado do que ele, se é que isso era possível.

— Olha só. — Xavier parou de repente e os encarou — Eu realmente não tenho tempo pra entrar nesse jogo com você... se realmente tentar me ofender com esses insultos genéricos sobre meu pai for o melhor que você consegue fazer, então, sinto muito, prefiro deixa-lo falando sozinho.

Miguel ergueu uma sobrancelha.

— Para de falar... coisas. Seu... seu... — Xavier viu o menino esforçando o cérebro para pensar numa ofensa Era como se ele pudesse enxergar uma ‘barrinha de loading’ por cima de sua cabeça. Depois de alguns segundos, ele disse, por fim:

GAY!

Todos gargalharam.

Meu Deus, pensou Xavier, eu sou MUITO superior.

E os ignorando pela segunda vez, entrou na esquina da rua onde Melissa morava. Sua casa era uma logo do início, e como a família da garota os conhecia, entraram sem bater.

— O quê?! — Melissa riu — Como assim, Coxuxo? Eu não posso te acompanhar, eu... eu posso ser vista!

— E daí? — Xavier insistiu — Você não é a primeira que diz para ignorarmos as opiniões dos outros?

— Mas é diferente... se alguém da minha família souber que eu fui nessa parada, podem achar que eu sou lésbica...

— Você não é a primeira que diz para ignorarmos as opiniões dos outros? Você não é a primeira que diz para ignorarmos as opiniões dos outros? — Xavier riu. Melissa deu um tapa de leve no seu peito.

— Ta bem, gravador... Eu vou com você.

Xavier parou de rir na HORA.

— O quê? — Ele perguntou.

— Eu vou com você — Ela respondeu.

— Como é? — Ele perguntou... de novo.

— Ta surdo? — Ela respondeu com uma pergunta.

— Você vai mesmo comigo? — Ele respondeu ignorando a pergunta dela.

— Claro que sim, Coxuxo...tudo pelos amigos, né... — Ela disse, por fim, enquanto a pergunta “ta surdo” afundava no esquecimento mútuo. Gui pigarreou.

— Obrigado por me convidarem — ele disse — Mas não, tenho medo de homossexuais e homens que se vestem de mulher.

— Eu sei. — Xavier disse — Tem medo de confundir com uma mulher de verdade e descobrir tarde demais.

***

Desceram do ônibus de Guarús, Melissa e Xavier, ainda atônitos. A rua principal estava completamente lotada; Haviam homens para todos os lados, de todos os biótipos e roupas possíveis. Homens absurdamente musculosos, de mãos dadas com outros homens absurdamente musculosos, mas todos eles absurdamente afeminados. Par ao outro lado, um grupo de gays da terceira idade levantando umas plaquinhas escrito alguma coisa que Xavier tinha certeza que jogariam no chão e correriam para debaixo do bandeirão arco-íris na primeira oportunidade que tivessem.

E lá estava Djeanny, com uma roupa absurda vermelha, e um perucão roxo a la Maria Mercedes até as nádegas.

— Filhote! Aqui!! — Ela gritou — Mas gentsh, vejo que você trouxe aquela sua amiguinha do colégio! Tudo bem, menina?

— Tudo bem, senhor.. senhora, hmm, não sei o seu nome...

— Djeanny. Djeanny Márcia, muitíssimo prazer... — Elas se cumprimentaram.

Xavier quis morrer.

— Pai, essa é a melhor peruca que eu já te vi usando.

As colegas próximas a Djeanny, a própria Djeanny e Melissa levaram um susto. Em seguida, o susto no rosto do foi substituído por um largo sorriso.

— Obrigado, meu filho. Agora vem, vamos desfilar, quero te apresentar umas amigas! Vem também, menina, fica perto porque isso aqui ta um perigo hoje! — E riu daquela forma que Xavier tanto detestava.

E foi quando tudo aconteceu. Todo o motivo pelo qual eu estou contando essa história, todo o motivo pelo qual essa história é interessante, todo o motivo pelo qual o Xavier se tornou a pessoa que ele é hoje.

Uma travesti qualquer, chamada de Bonita, passou correndo por Djeanny e arrancou sua peruca com as mãos. Djeanny gritou e tentou agarra-la, mas a peruca desapareceu por entre as outras travestis; Dejanny parou no meio do povo e urrou de óido.

— ESTOU DESCARACTERIZADAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!! — Trovões e cavalos relinchando pontuaram sua exclamação. Xavier tentou observar com o olhar rápido para onde foi a Travesti, mas a perdeu de vista. Melissa ficou sem entender, e Djeanny começou a chorar quando algumas amigas chegaram.

— Espera, amiga, espera... calma... vamos, vou te emprestar uma chanel que eu tenho no carro...

— Não quero nada. — Retrucou Djeanny — Aquelas falsas ridículas, invejosas! Eu vou acabar com elas. Eu vou matar todas elas! Onde está a gerente?

— Ela não veio... Djeanny, não faça nenhuma besteira, você sabe que você pode...

— Não se preocupe, Grizellya. Eu já sei exatamente o que eu vou fazer. Vem, Xaxá. Vamos pra casa. Isso aqui já deu.

Agora pensem comigo: Uma travesti, cujo visual inteiro depende de cada parte, quando fica sem peruca, perde a identidade; Por conseqüência, soa como um insulto fazer isso num evento tão importante para elas. A parada gay para as travas é como as missas de domingo para as mulheres negras do Sul dos Estados Unidos: O local ideal para CAUSAR e APARECER.

A travesti que roubara Djeanny, Bonita, bebia uma dose de vodka num beco qualquer enquanto gargalhava algo parecido com a risada da Rainha Má da Branca de Neve da Disney quando PENSA que a Branca de Neve estava morta.

— Aquela vadia agora NUNCA MAIS vai se meter no meu caminho... — Bonita disse para as outras, rindo.

— E segunda, o que você acha que ela vai fazer quando te encontrar no ponto?

— Nada, se ela for esperta. Se fizer qualquer coisa... eu mato aquela desgraçada. Roubadora de homens. Só porque é a única que não tem silicone industrial. Metida dos infernos!

***

— Pai, não fica assim... é só uma peruca... você pode comprar outra...

— Você não entende, Xaxá... — Djeanny chorava sutilmente, lágrimas negras por conta de sua maquiagem que borrava — Era a peruca de Miss Marple...

Miss Marple? — Gui perguntou, levemente interessado — É alguma homenagem à Agatha Cristie?

Ninguém respondeu.

— Essa peruca tinha um valor sentimental enorme para ela... e ela passou para mim... você tem idéia disso? Foi com essa peruca que Miss Marple foi miss Gay de Campos pela segunda vez!

E sem mais, Djeanny se entregou aos próprios lamentos e desabou-se a chorar. Apoiou na cadeira e começou a soluçar, e então, sua voz feminina se desfez. Retirou a maquiagem do rosto com as mãos, revelando suas rugas de homem de meia idade; Retirou as unhas postiças com os dentes, e aos poucos, Melissa, Gui e Xavier não conseguiam mais parar de olhar, e de se sentirem mal.

— Como eu poderia cobrar isso de você, Xavier... você nunca vai entender. É evidente que você me despreza... que filho amaria um pai que se veste de mulher? Que se prostitui pra ganhar a vida? Os chefes de família trabalham... ganham dinheiro suficiente para dar aos filhos uma vida decente sem precisar se humilhar, se vender... então eu pergunto, onde está o amor? Não há amor. Você não foi gerado por fruto do amor de um casal, você foi uma brincadeira de um gay babaca e uma menina tola. Ah, eu amei sua mãe...mas nunca como mulher. Éramos como irmãos... Há. Chega a ser engraçado, ao ver por esse ângulo. Tive um filho com a minha irmã. Não é Deus que diz que incesto é pecado? Mas de que me adiantaria me preocupar, eu sou o pecado em pessoa... mas Deus sabe que eu tentei. Eu tentei ser diferente mas eu nasci assim. Eu não seria burro o suficiente pra escolher nascer assim. Ninguém é. Minha vida seria muito mais fácil se eu fosse normal... mais fácil e alegre ainda se sua mãe estivesse viva e se você me amasse, porque...

— BASTA, PAI! — A voz de Xavier ecoou. Todo mundo ficou em silêncio, e então, o garoto chorou. Levantou-se, foi até o seu pai, e lhe deu um abraço, talvez o primeiro, mas omais forte que já dera em alguém;

— Xaxá... — Djeanny empalideceu, mas retribuiu o abraço, carinhosamente.

— Você sempre foi e sempre será o meu pai, o único que eu tenho, o único que eu desejo como pai, e o único que eu amo. Nunca mais abra essa sua boca suja de batom pra falar essas merdas que você tava dizendo. Eu te amo, pai. Para mim você é tão normal quanto qualquer outro pai, ganha a vida do modo que você acha melhor, e eu sei que você faz porque precisa. Eu te peço perdão, pai, se te nunca apoiei, nem me aproximei de você, se nunca confiei em você ou te levei a sério, mas saiba que o problema nunca foi você. O problema sempre foi eu. Eu invejo a sua coragem, a sua auto-estima, de ser quem você é e foda-se o resto. Você é o melhor pai do mundo, e ao meu modo... tenho muito orgulho de você.

Todos choraram. É, foi lindo, eu sei.

E não, não foi o Eu Lírico de Xavier, foi ele mesmo.

— Filhote... — Djeanny limpou as lágrimas, e sorriu, e talvez pela primeira vez em anos, Xavier ficara feliz. E então, adotou uma postura séria.

— Está decidido pai. Eu, Melissa e Gui iremos recuperar sua peruca.

— COMO É? — Gui caiu da cadeira, enquanto Melissa deu um grito de empolgação.

— Finalmente, Xavier, você está agindo como um homem. — Ela disse, e ele corou. Gui interrompeu o momento constrangedor ao tentar se levantar e quase derrubar a mesa no processo.

— Bom... — o ele disse — Precisamos de um plano, Xavier... E precisamos da ajuda do seu pai.

— Vocês enlouqueceram? Não devem se meter nunca com travestis. Eles podem matar você, filho...

— Pai, nós iremos recuperá-lo. Nada que você possa dizer irá me fazer mudar de idéia.

— Senhor... — Melissa começou — Ou senhora, enfim. Eles a humilharam. Acho que você precisa revidar. Sabemos o quanto a peruca significa para você, e se nós três nos unirmos, creio que nada pode dar errado.

— Não... — Djeanny tinha tristeza no olhar — Vocês vêem filme demais. São tão ingênuos... Travestis são como traficantes. Eles matam. Sem dó. Vocês não vão correr esse risco, essa é minha palavra final... Agora, por favor, se me dão licensa... Xaxá, vou roubar alguns clonazepam seus e dormir loucamente.

Djeanny se retirou, mas o brilho no olhar de Xavier era intenso.

— Se papai não quer ajudar, que assim seja. Temos que pedir ajuda à outro alguém.

— Ai Meu Deus, Caxuxo. — Melissa levantou-se da cadeira — Que outro alguém?

Xavier sorriu maliciosamente.

Continua...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Carne de Gaivota

Carne de Gaivota

Seus passos eram apressados, e seu peito parecia não suportar mais guardar seu coração, que palpitava incansavelmente em um ritmo que Horácio jamais sentira. Seu braço direito descrevia um movimento débil enquanto seus lábios inferiores tremiam ao toque do ar quente, fazendo sua aparência se tornar de alguém que se encontrava em estado mental deplorável — e comprometido. A beira-mar estava lotada de turistas e pessoas que se exercitavam pela manhã, e o restaurante tinha acabado de abrir. Horácio entrou correndo, sendo um dos primeiros clientes, dirigindo-se direto ao balcão.

— Em que posso ajudá-lo, senhor? — Respondeu o garçom, no seu ritmo matinal rotineiro e com sua cordialidade profissional, mas Horácio ignorou a frase e acabou atropelando-o.

— Gaivota. — Horácio disse, ofegante — Carne de Gaivota.

O garçom fitou-o com uma ligeira perplexidade, mas acenou com a cabeça e retirou-se. Os pés de Horácio tremiam e balançavam compulsivamente, e a todo momento durante a espera do prato, Horácio consultava o relógio. Passou as mãos pela cabeça suada, e tentou um exercício de respiração para tentar relaxar o corpo.

O que Horácio não sabia, no entanto, era que de longe, uma mulher o assistia. Cristina começou a observá-lo desde que o viu na calçada, de frente para a praia, visivelmente perturbado, mas dirigindo-se a um restaurante. Era chefe do departamento de Homicídios da Delegacia local, e acabava sendo paranóica ao ponto de achar qualquer comportamento fora do usual um comportamento suspeito.

O prato de Horácio chegou, e Cristina percebeu a alteração em todo o seu corpo. Ele parecia como uma criança, que ganhava uma bola pela primeira vez; A excitação percorreu sua espinha enquanto ele levou o primeiro garfo à boca. Após engolir, fez uma expressão de medo à carne de gaivota, e levou uma segunda garfada. Horácio deixou o garfo cair, e fechou os olhos, como se algo que ele estivesse tentando evitar acabara acontecendo. Levantou-se, e se retirou, deixando o prato para trás, e no momento em que o garçom levantou para ir cobrá-lo. Horácio puxou uma arma do bolso, levou a cabeça e atirou.

Cristiane levantou-se correndo, enquanto o cadáver atingia o chão. Os garçons gritaram e os outros clientes se abaixaram com medo de um tiroteio. Cristiane correu para o corpo, exibindo suas credenciais em um berro firme, enquanto lutava como choque em seu corpo e a complexidade do que acabara de presenciar. Simplesmente não fazia sentido. Observou no dedo dele uma aliança de ouro, será casado? Ou separado? e observou sua barba mal feita e seu cabelo cortado de forma displicente. Ligou para a polícia enquanto sua mente tentava estabelecer uma relação, mas era simplesmente impossível. Olhou para os lados, e sem com que ninguém percebesse, furtou o celular do homem, caído no chão; Era um modelo antigo, daqueles do tamanho de um controle remoto, e teve um pouco de dificuldade para esconde-lo, mas conseguiu com êxito.

A polícia fechou o local, enquanto ambulâncias e legistas chegavam. Cristiane apresentou-se, e reconheceu os inspetores que trabalhavam consigo.

— Você presenciou a cena do crime? — Bomba, como assim era conhecido, nunca deixava-se abalar; Qualquer caso era absurdamente divertido e devido ao seu grande peso, e raiva descontrolada, era o favorito de Cristina naqueles casos mais sombrios — Que sorte. Poupou-nos muito trabalho, se viu quem atirou.

— Não foi um crime. — Cristina acabou soando ligeiramente apática, mas não foi de propósito; Já vira muita coisa na vida, mas nada tão perturbador como aquilo — Foi um suicídio.

— Um suicídio? — Bomba ficou sério — Então... Por que mandou nos chamar? Não teremos a menor utilidade aqui, um suicida é igual a todos os outros... dinheiro, mulheres... ou homens — E riu. Cristiane fitou-o séria, enquanto o resto de sua equipe vinha chegando.

— Apesar de ter sido um suicídio... foi algo muito suspeito. Muito suspeito mesmo. Vamos conversar em outro lugar? Não quero ficar aqui por mais nenhum minuto.

Cristiane, Bomba, Fernando e David foram até um bar que sempre freqüentavam, quando tinham que refletir sobre algum caso sério ou quando simplesmente queriam esquecer de suas vidas, todas focada sem seus problemas pessoais e afogadas nas mesmas mágoas clichês de sempre, ou mulheres ou dinheiro, ou ambos; Sentaram-se e pediram uma cerveja, enquanto aos poucos os outros inspetores começaram a notar o comportamento alterado de Cristiane.

— Um homem entra num restaurante na beira-mar, pede carne de gaivota; Come dois pedaços da carne, e em seguida, se mata. — Fez um breve silêncio — Por que?

— Cris... — David começou, olhando para os lados, como se procurasse apoio nos olhares confusos de seus colegas — Ele é um suicida. Tirar a própria vida já demonstra a loucura dele o suficiente, é meio irrelevante essa historia...

— Você tá querendo dizer — Bomba interrompeu — que ele se matou porque comeu a carne de gaivota?

— Sim. — Cris respondeu, ligeiramente satisfeita — Tinha algo na carne que ele comeu. Eu vi a expressão dele.

— Veneno? — foi o palpite de Fernando, mas que não acreditava muito naquilo tudo.

— Não acredito que tenha sido veneno... não sei, eu não faço idéia. O prato de Gaivota dele foi confiscado? Fiz essa solicitação assim que informei à polícia.

— Se você solicitou, então está. — disse David — Vou ligar para os legistas assim que puder, mas, Cris... suas suspeitas não tem bases sólidas. A polícia não vai poder investigar isso mais à fundo, e você sabe. O diretor geral vai dar o caso como encerrado, por se tratar de um suicídio... Não entendo o que foi que a perturbou tanto.

— Nem eu, David — Cris suspirou — Foi tudo muito rápido. O comportamento dele estava muito surreal. Acredito que ele não tinha a intenção de se matar, agiu como se tivesse sido obrigado. E de alguma forma, isso está diretamente relacionado à carne de gaivota que ele comeu.

— David tem razão, Cristina — Bomba virou o seu copo em um único gole — Ninguém te apoiará nisso. Provavelmente, não encontrarão nada na carne. Foi apenas um suicídio.

— Pode ter sido, mas tem algo errado. É uma intuição. Você me conhece, Bomba. Todos vocês. Algo ali me prendeu, acho que estou há tempos demais nessa profissão. Vou seguir essa investigação por conta própria, e ver o que eu consigo descobrir. Obrigada por terem escutado.

Cristina pegou um táxi e foi para o seu apartamento, sentindo-se exausta. Deitou na sua cama de casal, king size, no qual dormia sozinha. Olhou para o teto mas o teto parecia ignora-la. Tentou procurar algum detalhe despercebido mas não encontrou absolutamente nada.

— Você me entenderia se ainda estivesse aqui, Ricardo. — Cristina disse, em voz baixa, quando seu celular começou a tocar. Ela o pegou, lentamente, mas atendeu tendo um sobressalto quando viu que tratava-se da Delegacia.

— Detetive Cristina falando. — Ela atendeu, atônita.

Detetive, aqui é do Setor Forense. Não foi encontrado nada de anormal na carne, era apenas carne de gaivota, pura. Não havia nenhuma substância anormal, que pudesse provocar alucinações, ou confusão mental, nem veneno de nenhuma espécie.

De alguma forma, Cristina já esperava ouvir aquela resposta.

— Obrigada, Cíntia. — E desligou. Não estava na carne da gaivota, mas ela sabia que era a gaivota. Despiu-se, e entrou no banheiro.

Enquanto a água quente percorria a extensão de seu corpo magro, Cristina tentou por alguns minutos entender o que a fazia ficar tão paranóica naquele caso.

Curiosidade? Talvez. Mas curiosidade ela sentia com tudo, a todo momento. Nesse caso era diferente. Foi um homem que se matou. Como meu marido. Como Ricardo. Sim. E ela nunca descobriu os motivos. Ficou anos tentando convencer a polícia de que havia sido um assassinato, pela ausência de cartas pós-suicídio e pela ausência de sinais nos dias anteriores à tragédia. Mas nunca nada foi provado. E nunca será. Seria por isso que esse homem grudou na minha mente? Isso seria saudável para mim? Ela não saberia.

Mas descobriria.

Pegou a carteira, a chave do flat e desceu até a rua. Entrou em um táxi, e pediu que fosse até um escritório de telefonia móvel, no centro. Enquanto a corrida seguiu, Cristina ligou para seu escritório da Delegacia.

— Roberta, aqui é a Cíntia. Preciso de um favor seu, mas tem que ser off the record, se é que você me entende.

— É claro, Cris. Manda aí. Ninguém vai jamais ficar sabendo... é exame de DNA?

— Não. Preciso de todos os dados que você conseguir sobre um corpo que foi classificado como suicídio, ainda essa manhã.

— O cara da Gaivota?

Cristina empalideceu.

— Sim... — respondeu, hesitante — Se possível, um dossiê completo. Nome completo, idade, onde trabalhava, lugares que freqüentava; Se era casado, se tinha filhos, cidade natal, essas coisas.

— Ta. Para quanto tempo?

— Uma hora?

— Beleza.

Cristiane desceu do Táxi, e entrou no escritório. Jonas jogava um emulador de Snes em seu computador, quando levou um susto quando ela entrou.

— Calma, não sou seu chefe. — Cris sorriu.

— Ainda bem, gata, por que se fosse ele eu estaria fudido. — Minimizou o emulador, e a cumprimentou saudosamente — Quanto tempo faz, Cris? Três meses?

— Creio que sim. Desculpe não ter vindo antes, estou atolada de trabalho... inclusive, vim mesmo porque tenho um trabalho urgente, e preciso da sua ajuda.

— Sei. — Jonas sentou-se — E do que se trata?

— Vou conseguir nomes a qualquer momento... e preciso que você rastreie para mim o endereço de alguns números de telefone.

— Você tem o aparelho?

— Sim. — Cris puxou do bolso um celular; Era o telefone de Horácio, que ela furtara do restaurante pela manhã — Tem dois números que ele liga muito. Preciso saber quem são, endereços, nível de amizade, lugares que freqüentam, esse tipo de informações. Pago R$3000.

— Fechado. R$1500 agora e depois do trabalho?

— De acordo, Jonas. Tente ser rápido. Essa investigação é urgente.

— É algo relacionado com segurança nacional?

— Não, não... — Cris sorriu, percebendo que se contasse a verdade, soaria como patética — Fique tranqüilo. Hoje a noite envie as informações para o meu e-mail, pode ser?

Cris aproveitou que estava na rua e comprou mantimentos, foi no banco e sacou um pouco da quantia que mantinha em sua poupança e voltou para seu apartamento. Ao checar seu e-mail, encontrou o Dossiê de Roberta sobre o “cara da gaivota”.

Seu nome era Horácio Almeida. Era casado, havia dez anos, com uma mulher chamada Tereza Almeida; Não tinha filhos.Vivia com a esposa num bairro afastado da praia, e trabalhava como Auxiliar de Contabilidade num prédio no centro. Tinha apenas uma conta bancária e uma poupança pequena, e seus pais já eram falecidos. Seu único irmão vivo morava em São Paulo, e eles não tinham contato. Sua esposa visitava com freqüência a casa dos pais, que viviam em Rondônia; Não tinha irmãos.

Cris refletiu. Eram um casal solitário, sem ambiente familiar. Onde estaria a esposa agora? Provavelmente o necrotério deveria ter entrado em contato, para ver as questões do enterro; Cris pegou seu celular e discou novamente para Roberta.

— Roberta, aqui é a Cristina. O dossiê ficou incrível, mas preciso saber de um detalhe.

— Manda aí.

— Você sabe se a esposa desse Horácio foi contatada? Ela já veio reconhecer o corpo?

— Isso é engraçado, Cris. Ninguém conseguiu entrar em contato com ela. O apartamento dele está vazio, mas não há sinais de que ela fugiu. O celular dela chamou uma vez, alguém atendeu, em seguida, foi desligado e a polícia não consegue rastreá-lo. Como não existe suspeita de homicídio, então eles deixaram pra lá. Vão enterrar Horácio como indulgente.

— Meu Deus isso é terrível... — Cris suspirou — Obrigada, Roberta. Tchau.

Cristina deitou-se em sua cama. Ao amanhecer, iria até o apartamento de Horácio dar uma olhada, para ver se encontraria algo fora do comum; Checaria os telefones das pessoas para quem ele mais ligava, e tentar obter informações sobre motivos para um suicídio; E é claro, tentaria encontrar sua esposa, Tereza Almeida.

No dia seguinte, Cristina comeu correndo um pão que encontrou em cima da mesa e logo deixou seu apartamento. De táxi, seguiu até o endereço da casa de Horácio que continha no Dossiê. Notou que era uma área pobre, mas aconchegante. Desceu em frente ao prédio, e olhou em volta.

Não havia nenhuma movimentação relevante próxima ao prédio. Ela entrou na porta, e usando uma chave mestra, passou sem problemas pela portaria. Pegou o elevador e subiu até o quinto andar, e em seguida, abriu cautelosamente a porta do apartamento 504.

Ele estava impecável. Sem nenhuma bagunça, ou sinais de briga, ou sinais de abandono, nada. Tudo parecia perfeitamente limpo e no lugar. A louça estava limpa, não havia muita comida estocada na geladeira, nem nos armários. Ele pretendia viajar?

Cris olhou nos quartos, e encontrou tudo perfeitamente normal. Abriu gavetas, e nada encontrou a não ser papéis com telefones, extratos bancários, até que numa gaveta próximo da cama do casal ela encontrou algo que chamou sua atenção: Vários panfletos de Cruzeiros, Pacotes de Viagens de avião e de Guias Turísticos por várias cidades do litoral brasileiro. Ele pretendia viajar, então, com a esposa. Mas a pergunta é, para onde ele foi? A julgar pela casa arrumada, ele com certeza viajou, e deve ter retornado poucos dias antes do suicídio. Algo na viagem aconteceu, será?

Cristina deixou a casa, levando os panfletos, e chegou seu e-mail no seu iPad, e viu que Jonas havia mandado o relatório.

— Perfeito — Murmurou Cristina, enquanto lia os nomes e endereços de duas pessoas; Uma era Malcom, e era o número que mais aparecia no celular de Horácio; Ele vivia ali perto, e ela podia ir andando a pé. A outra pessoa chamava-se Yara Tarcísio, e vivia num bairro distante; pelo dossiê, Cristina viu que ela havia completado vários anos de cadeia, por agressão e violência. Uma amante? Teria ela sidode alguma forma, violenta com Horácio, ou sua mulher? Cristina foi caminhando, pela rua, até localizar a casa de Malcom. Aproximou-se do portão e tocou a campainha.

— Olá, quem é?

— Oi... Aqui é a Detetive Cristina, da Delegacia do Rio de Janeiro... Teria um minuto livre?

Seguiu-se um silêncio hesitante, até que Malcom confirmou no interfone. Em poucos minutos, ele abriu a porta e a chamou para entrar.

A casa de Malcom era simples, mas continha toda uma história de família impregnada em suas paredes. Cristina sentou-se num sofá de couro incrivelmente confortável, e Malcom a ofereceu um café.

— Em que posso ajuda-la? — Malcom perguntou. Cristina deu um gole, e começou:

— Um amigo seu cometeu suicídio na manhã de ontem. Ele chamava-se Horácio Almeida.

A xícara de Malcom despencou de suas mãos, e espatifou-se no chão. Cristina levou um susto, mas captou no ar a confusão do homem.

— O quê?! — Malcom exclamou — Isso é impossível! Não, com certeza deve haver algum engano...

— Sinto muito, mas não há... ele se suicidou num restaurante, ontem pela manhã, após comer carne de gaivota. Isso lhe diz alguma coisa...?

— Isso não faz sentido! Horácio jamais se mataria. Isso não combina com ele!

Ele não havia respondido, mas ela percebeu pela sua reação que a gaivota não lhe dizia nada. Será que não tem nada a ver coma gaivota? Será que foi apenas uma coincidência? Será que todos estão certos, e ele era apenas um maluco suicida? Não pode ser. Malcom diz que não combina com ele, que ele não se mataria.

— Sinto muito pela sua perda. Vocês eram muito amigos? — Cristina perguntou, enquanto Malcom fazia força para não chorar.

— Sim... — ele disse, coma voz baixa — Sim, éramos muito próximos. Nós nos casamos com nossas esposas na mesma época, as festas aconteceram juntas... E quanto à Tereza? Ela foi avisada?

— Não conseguimos localiza-la. — Cristina respondeu — Ela sumiu.

— Entendo. Deve ter surtado quando descobriu pelo noticiário que Horácio cometeu suicídio. Pobrezinha, ela é muito instável emocionalmente, ela deve estar péssima...

Ah, é mesmo? Tereza tem problemas emocionais? Interessante.

— Você diz que Horácio não tinha motivos para se matar... você tem algum palpite?

— Não! Muito pelo contrário, eles iriam voltar de um cruzeiro essa semana. Estavam renovando os votos do casamento, estavam planejando filhos... nunca vi Horácio tão feliz em toda a minha vida. Por isso que não faz sentido!

— É, é o que eu também vejo... Eles saíram num cruzeiro, você diz. E qual cruzeiro foi esse? È um de algum desses panfletos?

Cristiane mostrou à Malcom os panfletos que obtivera na casa de Horácio, e ele reconheceu o cruzeiro em questão em um deles.

— Foi neste. FFJ Cruzeiros. Iria até Curitiba, e depois voltaria, pela orla. Visitaria Ilha Grande também, e as ilhotas de Paraty e Angra.

— Entendo... Malcom, muito obrigada e sinto muitíssimo pela perda. Sugiro que ligue para a delegacia e evite que o corpo seja enterrado como indulgente... apresente-se como amigo do casal, deverá bastar como testemunha.

Cristina se despediu, e se retirou da casa. Caminhou ligeiramente desconsertada, e entrou na internet usando seu iPad para pesquisar sobre o tal FFJ Cruzeiros.

Tratava-se de um cruzeiro econômico, que percorria os litorais brasileiros e ofereciam excelentes pacotes para casais. Horácio deve ter planejado a viagem com Tereza, e algo aconteceu durante a viagem que o fez se suicidar. E Tereza, desaparecida... será mesmo um surto psicótico? Ou será que ela tem algo a ver no suicídio? Será que ela o obrigou a se suicidar, e agora está com medo da polícia e fugiu?

Cristina mordeu os lábios. Ligou novamente para Roberta, e solicitou a ela que providenciasse um dossiê sobre o FFJ Cruzeiros.

— Cris, você pode acabar com meu emprego! Já é o segundo favor em dois dias! Só vou ajudar dessa vez, daqui em diante, desculpe, não poderei mais.

— Obrigada, Rob, você é incrível!

— Isso mesmo, Cris. — Roberta riu — Inflar meu ego só te trará benefícios.

As duas riram.

Cristina então lembrou-se de como eram poucos os momentos em que ela ria. Sentia falta de rir com Ricardo... rir com ele, rir para ele, rir dele... Apertou o peito, ao sentir um leve incômodo, mas então tentou desviar a mente para outro assunto.

Foi almoçar em um restaurante naquele bairro, cujo preço era bem inferior aos locais onde ela estava acostumada a comer, mas com quase a mesma qualidade. Após a refeição, retornou à rua principal e chamou um táxi. Enquanto o veículo fazia seu percurso, Roberta enviou o relatório detalhado do Cruzeiro, e do pacote para casais que Horácio havia comprado. Checou no relatório o nome das pessoas que foram nesse dia, e viu o de Horácio e o de Tereza, mas viu também um que chamou sua atenção: Yara Tarcísio, o outro contato que havia nas ultimas chamadas realizadas do telefone de Horácio. Cristina mudou o percurso na mesma hora com o taxista, até a casa da mulher, com o coração apertado e uma ansiedade fora do comum.

Levou cerca de uma hora para chegar no local. O bairro era um contraste relevante ao barrio no qual Malcom vivia; Era composto por várias alamedas e suas casas eram amplas e luxuosas. Cristina não demorou muito até encontrar a casa de Yara. Aproximou-se, lentamente, vislumbrando a riqueza de detalhes da mansão, e tocou o interfone. Uma governante veio até a porta atendê-la, e em seguida, a conduziu até a sala de estar da residência.

Yara desceu as escadas, com uma expressão de tristeza profunda no rosto. Vestia roupas de frio, e um sapato de salto alto com o bico fino vermelho. Sua maquiagem era pesada, e seus cabelos desprendiam-se até a altura da cintura.

— Posso dizer que esperava sua visita... — Yara disse, quando Cristina apresentou-lhe suas credenciais — Se trata sobre o suicídio de Horácio, não é?

— Sim. — Cristina examinou-a com os olhos atentos, e curiosos — Qual era o nível de proximidade de vocês dois?

Nível de proximidade? — Yara riu, para si mesma — Não éramos amantes. Horácio e eu sempre fomos amigos, desde a infância... ele vivia nessa rua quando seus pais ainda eram vivos.

— A última ligação dele foi para o seu celular, na madrugada do dia em que ele cometeu suicídio... O quê ele disse?

— Nada que fizesse sentido. — Yara suspirou, e Cristina sentiu alguma coisa errada — Ele chorava muito, e disse que... teria que partir. E isso foi tudo. Não me preocupei, na hora, pois achei que ele estava bêbado, coisa que ele adorava fazer. Na manhã seguinte vi o noticiário e fiquei sabendo de sua morte...mas já chorei tudo que eu tinha para chorar. A vida segue, não é mesmo?

— Ele não disse nada? Nada que pudesse te levar a crer que cometeria suicídio? Mencinou a esposa, ou o paradeiro dela? Alguma coisa que aconteceu na viagem em que tinha feito?

O olhar de Yara mudou. Parecia perturbada, e confusa. Cristina percebeu de imediato, e tentou ir com mais cautela.

— Você então os acompanhou no cruzeiro? — Cristina disse, num tom suave e amigável.

— Sim, eu... eu quem tive a idéia, a princípio. Eu havia insistido para que ele comprasse o pacote. Ele estava indeciso, por conta de sua esposa, que havia descoberto que estava grávida.

— Grávida? — Cristina franziu a testa — Não sabia desse detalhe, Malcom não me contou.

— Somente eu sabia — Yara disse — Tereza estava grávida de três meses.

Estava? Ela perdeu o bebê?

Yara demorou para responder. Ficou observando seu próprio sapato, respirando de maneira irregular, como se tivesse escolhendo as palavras. Ela está me escondendo alguma coisa.

— Ela perdeu o bebê. — Yara deixou escapar uma lágrima — Sinto muito, Sra. Cristina, mas não quero mais falar. Isso está muito incômodo... vou subir para o meu quarto. Se quizer ouvir um depoimento de mim, contate o meu advogado.

Cristina tentou insistir para que ela ficasse, mas Yara subiu as escadas, e se perdeu no escuro dos corredores do segundo andar; Não sabia da existência desse bebê. Isso talvez seja o motivo que eu estava procurando. Talvez seja por isso que Tereza sumiu, por se sentir culpada. Ela pode ter perdido o bebê no cruzeiro... Mas espere. Não existe posto médico num cruzeiro. Ela teria que ser removida. Devia ter perguntado isso à Yara...

Cristina pegou seu telefone, enquanto saia da casa de Yara, e ligou para o FFJ Cruzeiros, fazendo-se passar por repórter.

— Olá! Aqui quem fala é a repórter Mila Franchesca, escrevo para a Jornal Noite Viva... você deve ter ouvido falar de mim.

Mila vai me perdoar por usar as identidade dela.

— Sim, sim, sabemos quem é. Em que podemos ser útil? — Disse a voz masculina do outro lado da linha. Cristina pigarreou.

— Queria saber se no Cruzeiro Transatlantic 464 houve alguma coisa fora do normal... foi na primeira sexta feira do mês, o cruzeiro tem duração de duas semanas pelo litoral sul brasileiro...

— Alguma coisa fora do normal?

— Sim. Algum acidente, ou emergência...

— Deixe-me checar. — A voz se afastou. Cristina ouviu murmúrios incompreensíveis, e em seguida, uma voz feminina respondeu grossamente — Não houve nada, e não temos nada a declarar. Bom dia. — E desligou.

Cristina ficou estarrecida, com o telefone ainda no ouvido, sem entender nada. De certo, houver ao acidente, e por proteção ao nome da empresa, eles não devem ter falado sobre isso. Yara não diria nada, ela precisaria ir atrás de outra pessoa da lista. Mas quem?

Era noite, e Cristina estava exausta. Iriam fazer dois dias em que ela não conseguia tirar aquele caso da mente, a imagem do homem perturbado, que após comer carne de gaivota, suicidou-se sem o menor sinal de hesitação. As informações vinham surgindo, mas ela não conseguia ainda montar o quebra cabeça. Faltavam muitas partes, e seu difícil acesso aos dados tornava tudo ainda mais complexo.

Sentou-se em sua cama, e mais uma vez, releu todas as mensagens de texto do celular de modelo antigo de Horácio, para convencer-se de que não havia esquecido ou pulado nenhum detalhe. Foi ao banheiro, ainda como celular na mão, e quando viu que não encontraria nada de novo, o deixou em cima da pia, e tomou um banho quente.

Durante o banho, não conseguiu controlar-se, e deixou as lagrimas caírem, e seu choro e seu lamento estenderam-se por todo o apartamento, sua voz fúnebre e solitária chamando por Ricardo, que jamais a escutaria de novo.

Cristina acordou deitada no sofá, nua, com uma forte dor na cabeça. Ao seu lado, jazia uma garrafa de Helena completamente vazio. Aos poucos, as lembranças da madrugada foram voltando, enquanto ela limpava a bagunça que fizera. Yara é a minha única esperança. Se eu continuar a abordar as pessoas com minhas credenciais, o departamento irá descobrir e as conseqüências não seram tranqüilas. Preciso ligar para ela, como mulher, e pergunta-la tudo que preciso saber.

— Sim? — A voz de Yara estava sonolenta, mas com um tom firme que Cristina logo reconhecera.

— Não desligue. Aqui é Cristina, nos falamos ontem. Preciso confessar-lhe algo: Não está rolando nenhuma investigação sobre Horácio. O caso foi encerrado como sendo suicídio. Eu quero saber por conta própria, Yara... Eu preciso saber.

Yara permaneceu em silêncio, na linha, e Cristina apenas ouvia sua respiração. Ela sente algum tipo de dor. Ela viu algo.

— Onde podemos nos encontrar? Contarei o que eu sei. — Yara disse por fim, e Cristina marcou no bar em que se encontrava com seus colegas do trabalho.

Em cerca de duas horas, Cristina e Yara dividiam uma garrafa de vinho, enquanto Yara conversava sobre assuntos banais, como se tentasse fugir do real motivo que a fez estar ali. Cristina iniciou o assunto.

— Yara...você foi no cruzeiro com Horácio e sua mulher, Tereza, recém grávida, pelo o que você me disse. Alguma coisa aconteceu nesse cruzeiro?

— Sim. — Yara fechou os olhos — Mas não sei muita coisa. — Cristina percebeu que aquela afirmação não era real. Yara sabia algo que não iria dizer, mas Cristina precisava de pouco para entender tudo — A mulher de Horácio, Tereza, não era normal, se é que você me entende. Ela sofria de surtos paranóicos e mania de perseguição. Suas crises emocionais eram intensas, e ela as controlava com medicamentos. Mas, por causa da gravidez, ela suspendeu o uso, sem avisar a ninguém, nem a Horácio.

“Era uma madrugada do cruzeiro, quando eu não me sentia bem. Estava enjoada do mar. Queria voltar para casa, e o navio estava ancorado próximo à umas ilhotas de Ilha Grande, então fui para o convés observar o mar. Quando cheguei lá, encontrei-o vazio, e éramos orientados a não ficar lá de noite... Claro que eu ignorei o aviso, e fui assim mesmo, deliciar-me com os ares noturnos. Foi quando vi Tereza, sonâmbula, gritando com ninguém próximo à beira do navio. Fiquei empalidecida. Corri na direção dela, mas ela desiquilibrou-se e caiu.”

Cristina já não bebia mais. Yara chorava, olhando para o nada.

— Gritei e tentei pegá-la, mas ela se atirou no mar. Olhei em volta e ninguém viu. Ninguém poderia ter visto, ou pensariam que eu a empurrei. Não poderia jamais suportar a idéia de voltar para a cadeia, e uma paranóia entrou na minha cabeça... Corri para o quarto e acordei Horácio, e contei o que tinha acontecido. Mas Horácio nunca foi muito esperto, e foi pego pela adrenalina... correu e quando a viu no mar, sendo levada, pulou também”

— Ele pulou? No mar? — Cristina estava perplexa.

— Sim. E então, em questão de segundos, os dois desapareceram. O medo me fez passar mal, e eu desmaiei. Acordei na enfermaria do Navio, e perguntaram-me se eu queria voltar, e disse que sim. Não os contei sobre Horácio. — Yara despencou no choro, e falava com dificuldade — Fiquei com medo de ser acusada. Fiquei com medo da cadeia. Ser estuprada... Fui para minha casa. — Yara enxugou as lágrimas — E nada mais sei.

Está mentindo.

— Então, depois disso, Horácio te ligou?

— Sim, ele ligou, como eu disse. Não entendi nada.

— E sua reação? Você o viu desaparecer no oceano.

— Eu... — Yara parou de falar. O que você está escondendo, Yara?

— Confie em mim. Essa história nunca sairá daqui. Tem algo que você sabe... e que não me contou.

— Não. Não. Eu preciso ir. — Yara levantou e correu para a saída. Cristina xingou, e deixou o dinheiro da conta na mesa, mas quando chegou na rua viu que a mulher já havia entrado em algum táxi e desaparecido. Cristina foi pra casa.

Durante o caminho, ela foi conjeturando sobre tudo. Aquela história era absurdamente complexa, e os fatores que as formavam eram, individualmente, os problemas psicológicos específicos de cada um; Yara, paranóica por ter sido presa, Horácio, por sua imprudência e insegurança, Tereza, por seus desvios de sanidade mental. Tudo conspirava para o suicídio, embora ainda faltasse uma peça importante.

Cristina chegou em casa, e foi ao banheiro. Entretanto, quando entrou, sentiu um cheiro ruim. Sempre fora muito doentia com limpeza, e o cheiro apesar de sutil, estava exalando em seu banheiro. Observou em volta, e nada encontrou, quando viu o celular de Horácio em cima da pia, com moscas sobrevoando e algumas formigas saindo dele.

Cristina foi assombrada com uma louca rajada de perplexidade, quando lentamente pegou o aparelho e abriu o compartimento da bateria. Lá dentro, no vão que existia devido ao tamanho do celular, ela encontrou um plástico preto. Retirou o plástico, e constatou que o cheiro vinha dali.

Levou o plástico até a cozinha, e o abriu. Nada pode descrever as sensações que tivera ao ver o seu conteúdo.

Tratava-se de um pedaço de carne, podre, como se tivesse sido mastigada, e dentro dela, uma aliança de ouro, exatamente igual a que Cristina vira no dedo de Horácio no momento de sua morte. Não pode ser a mesma, essa só pode... E Cristina viu a areia, dentro do aparelho.

E então Cristina entendeu tudo.

Sentou-se, no sofá, incrédula, rindo de desespero. Yara sabia de tudo. Cristina pegou o celular e ligou para Yara. Ela não atendeu. Ligou novamente, e quando Yara atendeu dizendo palavras de ofensa, Cristina disse sem rodeios:

— Eu já sei de tudo. Descobri há pouco.A aliança estava dentro do celular.

Yara nada disse.

— Ele entrou em contato com você, e te disse, mas você não acreditou. Eu entendo, Yara, a probabilidade de algo assim acontecer é nula.Mas por favor, encontre-me, e ajude-me a encaixar a última peça desse quebra cabeças.

— Tudo bem. — Yara disse — Estou indo para a sua casa.

Cristina sentou-se, diante de Yara, chocada após ter visto a aliança. Ela ajeitou-se na poltrona e começou a falar.

“Quando Horácio me ligou, eu não acreditei. Achei que ele tinha morrido, assim como sua mulher. Insistiu para me ver, e a história que me contou parecia loucura.”

“Horácio acordou numa das ilhotas. Estava exausto, e o navio não se encontrava mais ancorado. Percebeu que ainda usava pijamas, e a única coisa que tinha consigo era o celular, no bolso do paletó, que resistiu à água e não queimou, por mais incrível que pareça. Achou perto de si sacolas de lixo, e algumas frutas, e as comeu; Por precaução, levou as sacolas. Andou por horas, pela orla da praia, pensando em dar a volta na ilha e encontrar a sua mulher, viva, na praia... mas não a encontrou em lugar algum. Sequer conseguiu percorrer tudo. A fome e a sede começaram a fazer com que ele delirasse. Foi então que ele viu, várias gaivotas, pousadas na areia, e então ele pegou uma das sacolas e conseguiu capturar três ou quatro... as matou com pedras e conseguiu fazer uma fogueira. Era seu instinto de sobrevivência falando. Entretanto...”

— Não hesite, Yara. — Cristina disse, quando ela parou de falar abruptamente, e começou a chorar. — Fale até o fim.

“Ele sentiu algo duro na carne de uma das gaivotas. Era a aliança. Dentro da Gaivota. Ele... Ele não entendeu nada. Ficou parado, retirou tudo da boca e colocou num plástico, e em seguida colocou dentro do celular. Estava prestes a desmaiar quando foi encontrado por turistas, num Iate...”

“ Assim, ele foi socorrido mas fugiu do hospital. Foi quando me ligou e pediu para nos encontrarmos, e me contou isso tudo. Não queria me mostrar a aliança, por isso, achei que eram apenas delírios dele. Fiquei com medo dele me denunciar, e disse que nunca havia cruzeiro. Que a mulher dele havia morrido por complicações da gravidez.”

— Meu Deus... — Exclamou Cristina, horrorizada. Yara mais uma vez, chorou profundamente.

“Eu sei” Ela disse, quando se recuperou. “Eu sei, sou terrível. Terrível. Quando vi que ele se matou, eu não acreditei. Ele não entendia a aliança na Gaivota, mas era tudo tão surreal, ele achou que estava ficando maluco de verdade, e por isso... disse-me que queria morrer. Eu não acreditei. Queria elimina-lo da minha vida, e da minha mente. Agora eu juro. Não sei mais de nada.”

— Sim. — Cristina disse — Mas eu agora já sei de tudo. Obrigada. Nunca contarei a ninguém o que houve.

— Se você sabe o que houve... poderia me dizer? — Yara a olhava, desgastada do choro. Cristina acenou com a cabeça.

— As gaivotas se alimentam de peixes, e de cadáveres de mamíferos. A gaivota comeu o corpo morto de Tereza, e Horácio também, ao comer a Gaivota. Quando ele se deu conta de que talvez tenha comido os restos da própria mulher, foi num restaurante e pediu carne de Gaivota. Quando viu que o gosto era diferente... ele se matou. Tudo por causa da carne da gaivota. — Cristina levantou-se para ir embora — Preciso ir para casa, Yara. Ligue-me se precisar de algo.

Cristina chegou em casa, aliviada por ter descoberto tudo, e alivada por ter esclarecido tudo à alguém que agiu de forma errada por conta de sensações insanas. Nada traria Horácio de volta, ou sua mulher, ou seu filho, nem nada traria Ricardo de volta para os braços de Cristina, mas ela sabia que dessa forma ela poderia ajudar.

Ele teria gostado disso.

Ela sabia que onde quer que seu marido estava, ele estaria feliz, por ela ter ido até o final e ter descoberto tudo.

Talvez seja um defeito meu. Algo que já colocou minha vida em risco várias vezes. Mas é quem sou. Se eu não fizer isso, nada farei. É a única forma que posso para cobrir o vazio que é não saber nunca os motivos que levaram Ricardo ao suicídio. Talvez eu não tenha descoberto porque o amava demais para ser fria, e outra pessoa não é tão boa igual a mim. Talvez seja para isso que eu sirvo, afinal de contas... auxiliar os outros, e ir para a cama dormir, todas as noites... sozinha.


FIM



conto por Julien Ossola, dia 31/10/2011