quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Heterossexual (parte 2)

João e Maria não foram feitos um para o outro. Isso acontecia porque João era um homem, e Maria era uma mulher. A sociedade dizia, desde sempre, que isso era um erro do mundo, uma aberração, um distúrbio, ação do diabo, cada uma das pessoas tinha uma teoria sobre a causa daquela doença que fazia os homens sentirem atração física pelo seu oposto, e vice versa.

Entretanto, João e Maria não se importavam, pois os dois eram heterossexuais e os dois sentiam algo quando se viam. Claro que as coisas foram acontecendo muito lentamente, e os dois foram se descobrindo juntos, no mesmo ritmo, e claro, escondido do mundo.

E João e Maria deram o primeiro beijo, os primeiros toques, o primeiro sexo. E o sexo não parecia anti-natural, o amor não parecia um distúrbio, era tão bom, era tão aconchegante, e ficarem juntos, abraçados, atrás de um muro de uma construção abandonada, os fazia se sentir tão bem, os fazia ter ânimo para tudo, os fazia feliz.

Mas João e Maria viviam uma vida dupla. Viviam porque precisavam, mas algo dentro deles estava se partindo, pouco a pouco.

— Você já tem dezenove anos, João. Ainda não arrumou nenhum namoradinho não? — Dizia o pai, à mesa, com toda a família reunida — Engraçado isso, eu na tua idade tinha vários.
— Não precisa transformar o garoto num canalha, né — Disse o outro pai — Deixa ele ir com calma.
— Eu... (gosto de mulher) vou achar alguém com o tempo. — E João sentiu seu estômago apertar. Como ele queria poder dizer tudo de uma vez. Mas ainda não. Ainda era cedo.

Maria, ao contrário de João, não tinha tanta sorte. Sua família era extremamente heterofóbica e deixava isso claro a todo momento. Maria não argumentava, nem tinha oportunidade para expor nenhum ponto de vista. Era um inferno.

Então em uma noite, como todas aquelas noites anteriores, algo diferente aconteceu. João e Maria tiveram uma idéia. Uma idéia estúpida, ridícula, inconsequênte e impulsiva. Mas quem liga para isso quando se ama?
— Vamos fugir. Eu e você. A gente conta tudo e vai embora.
— Mas João, viveríamos de que?
— Eu posso trabalhar em qualquer coisa, e você continua fazendo as bijuterias. A gente junta a renda e vai morar junto, quem sabe adota um filho...
— Não seja utópico, a justiça jamais deixará um homem e uma mulher adotarem um filho.
— De qualquer forma, Maria, eu te amo, e essa situação tá muito difícil. Eu to quase gritando pros meus pais que sou hétero. Se isso acontecer, com certeza serei mandado para fora de casa.
— Então você conta, e depois eu conto. E aí, a gente se encontra na Praça do Pedestal e de lá a gente vai pra rodoviária... para onde iremos?
— Tenho uma tia que mora sozinha lá pra Santa Clara. A gente pode ficar por lá até ter alguma renda pra sair.
— João, isso é uma loucura. A gente tá indo embora sem nada. Sem móvel, sem dinheiro, sem porra nenhuma.
— Você não quer ficar comigo, né?
— Caramba, claro que eu quero, só que você não tá levando em conta as dificuldades...
— Maria, eu não me importo. EU já passei por tanto perrengue. Pra agora eu me importar com isso.
— João, isso não faz sentido.
— Então você não vai?
— Eu vou, João. O que mais eu tenho a perder?

E assim seguiu, até o sábado onde tudo aconteceria. Maria reparou que até lá, cairia um temporal.


Continua...

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