sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Heterossexual (parte 3 - FINAL)

E lá estava ela, Maria, sentada no banco de sempre, anciosa. Olhava o relógio a todo momento, mas a hora se recusava a prosseguir. Ouvia no fundo os murmúrios das pessoas que estavam ali perto, normais, felizes, as crianças brincando, o trânsito leve, os pássaros no alto, mordia os lábios com força, e respirava fundo. Ele estaria ali a qualquer momento.

João estava em casa. Um de seus pais havia viajado, e o outro estava vendo televisão. Ele conhecia o gênio de seu pai, e não seria fácil. Toda a sua bagagem já estava pronta, escondida na varada. Ele poderia ter simplesmente deixado uma carta, mas ele sabia que seria uma atitude covarde. Ele enfrentaria quem quer que fosse por Maria.
Desceu as escadas de leve, cada passo que dava sentia um choque percorrendo seu corpo, aquele frio bizarro que acontece sempre quando vamos apresentar um trabalho numa sala de aula, aquele suor frio de nervosismo antes de algo que já suponhamos que será tenso.
Teria que ser de uma vez só.

— Pai? — João disse, tremendo. Era difícil pronunciar as palavras, era difícil até se manter em pé. O pai não prestava muita atenção.
— Fala.
— Eu queria conversar com você sobre uma coisa.
O pai olhou para ele instantaneamente. Fez silêncio por alguns segundos e desligou a TV, sem tirar os olhos do garoto.
— O que é? — O pai tinha medo.
— Sobre mim. — O filho tinha medo.
— Diz logo, João! — O pai estava ficando nervoso. João engoliu em seco.
— Eu sou hétero.
E o pai não respondeu.
É difícil descrever o que se passou pela cabeça dele, mas um homem daquela idade, criado numa sociedade em que há a maldade, há o preconceito, onde toda a sua personalidade foi construída em cima desses conceitos, ver a expectativa do casamento de seu filho, o orgulho perante os seus amigos, ver toda a educação desmoronar, diante de seus olhos, e tentar localizar o erro e não conseguir, e nem se dar conta de quão doentio eram aqueles pensamentos.

O pai levou as mãos na cabeça, tentando regredir o tempo segundo antes, preferir que João nunca tivesse lhe contado, mas era inútil. João, deveria ter ficado em silêncio.
Mas ele não ficou.
— Eu to indo embora. Com a Maria. Estou apaixonado por ela.
E o pai explodiu.
— COMO VOCÊ PODE ESTAR APAIXONADO POR UMA MULHER SE VOCÊ É UM HOMEM?! — E ele chorava — Isso é doentio, João! Você não tem que ser assim!
— Pai, isso não é uma escolha minha, eu sou assim desde sempre, lutar contra isso é pior!
— Você não era assim! Você ficou assim porque? Foram esses amigos seus que fizeram sua cabeça! Meu filho, isso tem cura!
— Cura? — João riu — Isso não é uma doença.

O pai lembrou-se então de seu pai, quando ele tinha oito anos, com seu irmão de quatorze, quando disse que era hétero. Era um segredo que ele nunca tinha dito para ninguém. Então pai se levantou. E o bateu.
No primeiro soco, João não acreditou. No segundo, ele despencou no chão e caiu. Levou as mãos na bochecha mas logo levou outro soco. E outro. E outro.
E seu pai chorava muito. E depois de espancá-lo, ele subiu as escadas atordoado.
— Não criei filho para sair por aí com uma mulher.

João então se levantou.
— VOCÊ NÃO ENTENDE! E NUNCA VAI ENTENDER! Pra você é muito mais fácil, porque ninguém fica dizendo que é errado. Ninguém! Mas tenta imaginar, e se fosse o contrário? E se homem com homem fosse o errado? Você mudaria? Claro que não, porque ninguém muda, todo mundo se adapta. Então mesmo que eu finja gostar de homem estarei fingindo, pois meu coração pertence à alguém, e a uma mulher.
— Então finja, João.
E joão parou de falar de repente. O pai continuou:
— Finja. Não quero saber de nada. Prefiro que você não me diga. Prefiro...
E o pai desmaiou. Caiu pela escada, rolando, até chegar aos pés de João. João correu até ele, desesperado, e o encontrou desacordado, com uma baba branca correndo do canto da sua boca. Ele pegou o telefone e ligou para a ambulância, enquanto checava para ver se o pai estava vivo.

E Maria ainda estava lá, aguardando, enquanto a chuva fina que caíra aumentava para um temporal. Mas ela não se moveria dali, ela ficaria ali até João aparecer, pois ele apareceria, sem dúvida.
Mas ele nunca apareceu.
E quase quarenta anos depois, João tem uma família. Tem filhos. Aquele pai seu falecera, ataque cardíaco, e o outro ainda vivia, de forma precária, mas estava vivo. Maria tinha se entregue para o mundo, mas não dava certo com ninguém.
E João, casado com um homem, tinha uma certeza. Se adaptaria ao sistema, e trairia seu marido com mulheres pelo resto de sua vida.








FIM

Um comentário:

  1. A pergunta que fica é: PQ q tem q ser assim???
    Amor deveria ser muito maior q td isso!!!
    Abraços!!!

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