quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Os Bafões de João

E lá estava ele, João, trajando uma roupa social qualquer que imitava alguma cara, uma gravata skinny verde combinando com o detalhe de seu relógio (que também imitava um caro), um sapato social daqueles duros de bico fino e uma calça brim normal reduzida manualmente pela sua vizinha costureira. E ele ia caminhando, com um sorriso falso estampado no rosto, carregando sua maletinha, voltando de seu trabalho fantástico (ganhava bem e um Visa Vale de 200 reais por mês. Ah, que inveja).

E passava pela rua próximo à praça da República, onde pegaria uns exames para sua tia. Ele tinha noção de onde ficava o local, mas esforçava-se para tentar lembrar detalhes mais sólidos, ou acabaria se perdendo. Entretanto, graças à nobre conveniência humana aos desprovidos de coordenação geográfica, havia uma placa do tamanho de um outdoor indicando onde ficava o UH Saúde.

Eram três casas iguais, provavelmente antes de ser UH Saúde eram algum tipo de condomínio, onde viviam três famílias. Agora funcionava a clínica, e ele foi caminhando, autoconfiante, para dentro da última casa.
Chegou, e abriu a porta.
Deu de cara com um velho, num balão de oxigênio, assistindo televisão. Ele olhou incerto e perguntou:
"Onde pega exame?"
O velho pigarreou, como se estivesse acostumado a dizer o que disse:
"A clínica é ali do lado."
Bruno parou, olhou para o balão de oxigênio, deu meia volta e saiu da casa.

Eram três casas iguais. Entretanto, quando o UH Saúde comprou as casas, comprou apenas 2, pois um dos moradores não quis nenhum acordo.

Agora, imaginem.

Você está em casa muito bem, assistindo sua televisão, quando de repente alguém que você nunca viu na vida abre a porta da sua casa, entra, olha nos seus olhos e pergunta "onde é que pega exame?"

Mas nada é mais intrigante do que o balão de oxigênio.
Vai entender.

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