quarta-feira, 30 de março de 2011

RABISCOS [parte 3| - Distração.

O rio a levaria. Era o que eu tinha em mente. Ela estava irreconhecível, e limpei cuidadosamente o seu corpo para que não ficassem digitais. Ela foi sendo arrastada pela correnteza, enquanto Susane jazia ao meu lado, também irreconhecível. Havia cortado cada centímetro de seus corpos, e puxado a pele. Prejudiquei as digitais dos dedos, e raspei todo o seu cabelo. O mesmo fiz com Natália, que provavelmente seria comida de urubu dentro de alguns dias. Ninguém haveria de encontrá-la, e se mesmo assim isso ocorresse, não a reconheceriam; Mas com Susane havia de ser diferente. Eu não podia simplesmente deixá-la no rio. O ritual tinha que ser conforme eu havia aprendido. Mas por algum motivo, ele não queria falar comigo. Apenas escondi o corpo embaixo de umas folhas secas, e retornei a festa.
Todos ali tinham que morrer.
Minha tia dançava alegremente no salão. Ela era magra, com um rosto sério, pálido. Estava bem vestida, e dançava habilidosamente. O irmão dela estava mais a frente, assistindo calado, tomando um copo de vinho. Parecia analisar cautelosamente o líquido, e vez ou outra olhava em volta. Então, seus olhos se encontraram com os meus. Ele acenou com a cabeça. Eu me aproximei. Ele era belo, tinha um corpo conservado, e olhos azuis muito claros, coisa que minha tia não havia herdado.
"Queria falar comigo, Miguel?" Disse. Ele me olhou sério.
" Está gostando da festa?" Ele perguntou, e eu nem respirei.
"Não."
"Ora, e poderia saber porque?"
"Não."
"Tem alguma coisa errada, Dimitri?" Ele percebeu que estava tenso. Não sei porque, não conseguia parar de tremer. Estava ancioso.
"Me diga... Dimitri..." Ele ballbuciou, e eu senti como se fosse ouvir a coisa mais horrível do mundo. Estava com medo, e não sabia porque. Ele continuou.
"Você já..."

Olhei para trás.
Foi tudo muito rápido.
A cortina estava em chamas.
Minha tia havia derrubado um candelabro na cortina, e o fogo logo se espalhou. Miguei fora interrompido pelos gritos agudos, e as pessoas começaram a jogar água na cortina. Eu vi que seria inútil. Comecei a rir. Todos morreriam. Então eu engasguei.
Não fora eu quem os matei. Mas eu deveria matá-los. Eu deveria causar a morte de cada um deles. E de certa forma, estava sim cogitando um incêndio. Mas por alguma razão, não conseguia me concentrar. Estava com um frio na barriga terrível. Meu tio sequer se movera. Um grupo de homens tiraram suas camisas e a batiam para afugentar o fogo. Logo, as chamas cederam. Sai da casa, desconcertado.
Minha cabeça doía. Miguel levantou-se e me seguiu. Eu comecei a me afastar da casa, indo em direção à floresta. Miguel começou a me seguir.
Não conseguia parar. Surgiu uma vontade intensa de levá-lo ao corpo. Mas eu não podia.
Não sabia o que estava acontecendo comigo. Eu parei.
"Por que me seguiu?"
"Você sabe, Dimitri." Ele disse. "Eu não terminei minha pergunta."
"O incêndio." Eu disse, de forma robótica. "Você sabia do incêndio."
"Dimitri. Você já..." respirei fundo. Novamente uma sensação de medo percorreu meu corpo.
"Não." Respondi, sem ouvir as últimas palavras, mas entendi o que ele perguntou.
" Isso é mentira, Dimitri. Ambos sabemos que sim. Não fuja da realidade."
"Miguel. Você não sabe de nada da minha vida. Se você não quizer que eu te mate, saia já daqui."
"Me matar?" Ele sorriu. Isso me assustou. "Você jamais me mataria, Dimitri."
Tremi. Tudo fazia sentido agora. Eu via através de seus olhos. Talvez... talvez eu devesse...
"Não". Ele respondeu. Desabei no chão.


Continua.

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