sábado, 30 de abril de 2011

Sexo e Relacionamentos: A vontade maior *(questionamentos parte 2)

Amor é consequência, sexo também.
Amor vem com o tempo, sexo também?
É possível adaptar o sexo, com a motivação certa?
É possível um gay se tornar hetero por amar uma mulher?
Aí entra a questão do psicológico.
O psicológico molda a ação.
Então, entre homens, o sexo é moldável?
Mas tem de haver uma afinidade. Uma vontade maior.
O que seria uma vontade maior?
Seria um impulso?
Mas seriam as razões do impulso irreais?
O que é pensamentos reais?
São pensamentos ocasionados em prol da razão...
E a razão muitas vezes, por ser comprometida pela circunstância, não seria também um impulso?
E impulsos, como vontade maior, seriam errados?
Ou seria uma forma de levar a coisa prum caminho melhor?
Vontade maior é algo que vem de dentro, algo que transcede o mundo material...
Não seria esse o objetivo do mundo?
Mas quem tem mente equilibrada o suficiente para prender-se nesse objetivo?
Acho que podemos tentar.
Ninguém perde nada tentando.
Porque acho que entre nós existe uma vontade maior.

Sexo e Relacionamentos... (questionamentos)

As pessoas sempre dizem que estão sozinhas.
Que não acharam ainda a pessoa certa.
Mas essas pessoas, afinal, o que procuram?
Não estariam elas procurando uma idéia X e se enganando, pensando ser uma idéia Y?
A questão é sexual ou psicológica?
Faz sentido um namoro acabar por conta de um problema sexual?
Qual é o problema de todos os relacionamentos?
Seriam talvez os defeitos...
E lidar com defeitos é a fórmula para ter um bom relacionamento, certo?
E a parte sexual poderia ser defeituosa?
E se pudesse, não poderia ser algo a ser lidado?
Por que é essencial o sexo num relacionamento?
Porque senão seria uma amizade. Um gay poderia então casar-se com uma mulher.
Mas e o sexo psicológico? Ele existe como prazer?
E como estado de espírito? Poderia o prazer psicológico ser o motor para um relacionamento?
Um homem sem pênis, pode ser feliz com outro homem?
Dois homens sem pênis, podem se fazer felizes?
Sem sexo?
Talvez possam.
Então, porque não mulheres?
Psicologicamente precisam de homens.
O que define um homem é apenas o genital?
Não, é a mente.
Então, se gosto de homens, gosto do conjunto.
O que é o sexo então? Seria apenas um instinto de reprodução.
E nunca haverá reprodução.
Então pode ser afugentado? Pode ser mesclado?
O que realmente importa?
Tudo é um equilíbrio.
Mas sexo tem que ter a mesma porcentagem de amor?
O que é o amor? Junto com o sexo?
Isso que sentimos não é amor. É algo forte e a falta da palavra, nós chamamos de amor.
Por que hoje em dia, forma de falar, de jesticular, de andar, atração sexual, é mais importante do que caráter, do que personalidade?
Se queremos alguém para a vida toda, é por sexo?
Algo que vai passar, daqui a 20 anos?
Então, se daqui a vinte anos não terá sexo, faz diferença NUNCA TER TIDO SEXO?
O sexo então é uma consequência, e não o contrário...
Se podemos nos acostumar com jiló por conta de uma dieta, podemos nos acostumar com não a falta de sexo, mas a adaptação de sexo.
Então, o sexo é mais um detalhe.
Então por que todos o procuram tanto? Por que todos sucumbem nesses valores vagos?
Por que não ter valores mais substanciais?
E se temos, até estaríamos dispostos a ir?
Até talvez...
o oitavo pôr-do-sol...
e depois... até o meu último pôr-do-sol antes de morrer.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Crônicas de Antigamente [ parte I ]

I

Julien tinha uma força descomunal nos braços, devia ser a raiva, a dor, não sabia ao certo, apenas sentia o sangue escorrer de sua testa enquanto carregava Rodolfo pela perna, com outro buraco na cabeça.
O levou mais do que rapidamente para o palácio, lá Rodolfo confessaria.
– Onde está? – Julien perguntou. Rodolfo cospiu, ainda que sangue, mas o fez orgulhoso. Julien esboçou um sorriso sínico.
– Não vou dizer nada. – Rodolfo retrucou, e não desviou seus olhos de Julien por nenhum segundo, que abaixou logo em seguida.
– Você sabe... perguntar para você onde está é um mero passa-tempo. Logo descobrirão que estamos com você e virão aqui tentar te resgatar. Todo o Povo-de-Trás está escondido aqui e lá, e eles nem se deram conta. A estratégia foi perfeita, e você vai estar livre quando tivermos obtido o balde.
– Você nem tem certeza se o oráculo sou eu!
– Claro que eu tenho. Você próprio se entregou quando tentou fugir. Sua reação provou que é você que conhece a localização do balde.
– Eu não diriei nada.
– Bom, nesse caso... Sinto muito, Rodolfo. Maurício!

Maurício era um garoto daquela faixa etária, mas era gigante. Devia ter o dobro do tamanho de uma criança de oito anos, como todos eram, e suas mãos tinham a mão do tamanho de uma cabeça de um cachorro. Julien se afastou, enquanto Rodolfo engolia em seco.
– Tudo bem! Tudo bem, eu digo.
– Onde está? – Julien se apressou.
– No hotel.

Julien fez um sinal com as mãos, e de trás da Caixa de Gás sairam outros dois garotos, Marcos e Alexander, o oráculo do Povo-de-Trás. Julien se inclinou para frente.
– Atenção. O Povo-da-Frente escondeu o balde no Hotel. Ninguém sabe que temos conosco o Oráculo, mas entraremos no território inimigo. Estão todos com os báculos?
– Ju, não seria melhor que eu ficasse?
– Já falei, Alex, se você for, eles não desconfiarão que você é o Oráculo. Eles reforçarão o ataque aqui, para descobrir a localização do nosso balde.
– Isso faz sentido, Alex. – Marcos disse em seguida – Eu sei que você nunca usou um Báculo, mas lhe daremos cobertura.

Julien olhou de esguelha para Marcos. Não sabia o que era aquilo, mas sabia que era forte. Tinha oito anos afinal. Não sabia de muitas coisas.

– Então vamos! Maurício, esconda o oráculo inimigo em algum lugar menos visível, afinal, ele sabe que o oráculo é o Alexander.
– Tudo bem. – Maurício se apressou em carregar Rodolfo, ferido, para outro lugar. Julien pegou seu estilingue e seu chicote, e respirou fundo.
– Vamos atravessar o Além.

***

Julien, Alexander e Marcos atravessaram o Além, chegando na Terra Neutra, achando atípico não ter nenhum inimigo por ali. Estavam quase cruzando a fronteira, quando Marcos parou de súbito.
– Algum problema, Marcos?
– Tem algo errado. Deveria ter alguém aqui vigiando.
– Eles não esperam nosso ataque. Duvido que isso seja algum contra-plano. Não haverá reviravoltas.
– Sim, mas devemos tomar conta de Alex.
– Não se preocupem comigo. Eu sei que fazer se me capturarem...
– Sim, mas a pílula é só em casos extremos. Ainda que você revele a localização, conseguiremos contornar a situação. – Julien tentou tranquilizá-lo.
– Então, vamos adentrar? Sairemos na Zona 10 se formos por aqui, o Hotel fica na Zona 6, teremos que entrar pela frente, haverá um combate. – Marcos disse, e avançou para o território inimigo. Todos foram atrás.

***

Aquela era a terra Verdes Campos. O reino era divido em dois grandes clãs, o Povo-de-Trás, e o Povo-da-Frente. O que os separava era uma área mágica chamada Terra Neutra. Cada área tinha um ponto de conexão. As áreas do mundo eram separadas por zonas, onde cada um dos guerreiros vivia. Julien vivia na Zona 16, no Elo 003.
Cada clã tinha consigo um tesouro, chamado de O Balde. Dentro do balde, continha um determinado tesouro. Cada clan tentava, a todo custo, invadir o território inimigo para roubar O Balde, mas apenas o Oráculo de cada clan conhecia sua localização.
E lá iam, 3 crianças de oito anos, com pedaços da peu nas mãos, vestindo trapos, num condomínio de prédios, deixando sua imaginação ser mais importante do que a própria realidade.


CONTINUA...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Meu Irmão Vegetariano

Enfim, nesses últimos dias, resolvi postar dois contos meus que eu gosto muito... porque os contos são meus, o blog é meu e porque tá fáciul pra ninguém!
Senti uma certa saudade dos meus textos informais sobre minha vida, um mero recém-adulto recém-empregado de vinte aninhos cheio de qualidade de vida (Top Therm RULEZ), então resolvi escrever sobre meu irmão, um quase-idoso (vinte e seis anos) e como foi quando ele resolveu que seria vegetariano.
Para vocês entenderem bem essa história precisam levar em conta alguns pontos... O primeiro é que, aqui em casa, temos 4 pessoas (meu pai, minha mãe, meu irmão e eu) e um gato, e cada um possui uma religião diferente. Meu pai é testemunha de jeová com tendências ao espiritismo, minha mãe é espírita que reza o terço, eu sou crente... pfffff BRINKS, eu sou agnóstico, pode-se dizer assim, e meu irmão na época tinha acabado de seguir a filosofia Hare Krishna. Para quem não sabe, essa religão vem da índia, e não tem nada a ver com aquela novela da globo tosca que eu esqueci o nome onde cada personagem tinha um sotaque diferente e todos falavam AREBABA. #FAIL
Meu irmão se apaixonou e se encontrou na religião, e meu pai foi absurdamente contra. Em todos os níveis. Era uma batalha de ego nos diálogos que irritava. Se meu irmão dizia um palavrão sequer, papai retrucava: "Hare krishna, Christian, Hare Krishna!"
Entre outras pérolas.
"Isso não é religião de gente normal"
"Tem que entrar numa religião... sei lá, séria."
"Caramba, Christian, você vai seguir um livro de mais de 10 mil anos?"

Contudo, o mais intrigante ainda estava por vir. Meu irmão decidiu se batizar, ignorando todas as alfinetadas do meu pai, e da noite pro dia (sim, da noite pro dia) ele se tornou vegetariano.
E foi isso.
Ontem ele comia presunto.
Hoje, não.
Parece bizarro, né?
...
E foi.

No princípio, ele disse que não era difícil. Acho que a mente da gente controla demais nossos impulsos, ele queria mesmo parar de comer carne. Até me mostrou o documentário onde aparece a violência que acontece com os animais, mas é como eu sempre digo...
"Quando tentei virar vegetariano, e olhei pro frango, não resisti e disse: Frango. Não tá fácil pra ninguém. E comi o frango."
Meu pai surtou. Lógico. A melhor pérola foi que vegetariano era coisa de viado. Então, na primeira semana, ele tentou esconder pedaço de carne no arroz, sem meu irmão saber, essas coisas. Mas o gosto é forte, né minha gente? Meu irmão saiu pela rabiola.
Nas semanas seguintes foi ficando mais ofensivo, e cada discussão terminava no fato do meu irmão ser vegetariano e como isso mataria ele.
Detalhe, quem conhece meu irmão sabe que ele SEMPRE foi magro.
Nos dias que se passaram meu pai sempre dizia "Você está cada vez mais magro... é a falta da carne!"
Os anos se passaram. Meu irmão se desacostumou completamente da carne. Fez um curso de culinária vegetariana e aprendeu vários pratos mara, acostumou seu paladar com os vegetais de gosto intragável e começou a se alimentar melhor que todos aqui em casa. Resultado, a anemia dele foi pro beleléu e hoje ele é uma bolota de sustância.

O que mais existe por aí são desinformados à cerca do vegetarianismo. Pessoas que acham que carne é essencial. Assim, é só googlar em sites sérios... O organismo humano não foi feito pra digerir carne. A gente come mesmo assim porque é gostoso. Eu sei bem disso, eu só como porque é gostoso. Só escrever isso me vem uma picanha na cabeça e me dá água na boca.
A religião Hare Krishna prega uma filosofia interessante em relação à carne, que é necessário pararmos o seu consumo para evitar o sofrimento desnecessário à esses animais, uma vez que não precisamos dele para consumir proteína. Mas... as pessoas não tão nem aí. XD
E nem eu. Fazer o quê? É a vida!
Quem tem a força de vontade pra parar de comer carne, merece um aplauso. Se o mundo inteiro fosse vegetariano, ngn passaria fome, pois todos os pastos que servem pros bois e a soja que os alimenta daria para uma dieta absurdamente saciável pra toda a população mundial. Sem contar no impacto ambiental que o consumo de carne provém. Tudo indica para largarmos a carne pra lá. Mas ninguém larga. Ninguém se importa... o que produção, eu já falei isso? Ok ok, next...

Moral da história, meu irmão é vegetariano e tenho orgulho dele. Ele nunca vai ler isso, mas também não faz diferença. Infelizmente ele não pode se orgulhar de mim por não comer carne, afinal... TÁ FÁCIL PRA NINGUÉM!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

MÃO DIREITA |||| parte 05 *****

*****

Confesso que também fiquei chocado quando meu pai me contou pela primeira vez como foi que ele havia conhecido minha mãe. Fiz inúmeras perguntas, sempre, pois ele nunca casou-se novamente com ninguém. Viveu com sua tia, que o ajudou a me criar, até que um dia ele faleceu, sem voltar a enxergar. Assim como ele, interessei-me pela pintura, interessei-me pela arte... de certa forma, me fazia o lembrar. Me sentia humano dessa forma. Assim como ele, nunca me casei.

Agora, todo o fracasso que foi minha vida faria sentido. Eu morreria, e de forma natural. Não fui eu quem cometera suicídio, fora o acaso quem me matara. E isso era delicioso. Decidi então ir visitar a velha, aquela que me fornecera tamanho presente. Levei comigo o envelope, e dentro, a foto de minha mãe, sua cicatriz terrível em sua mão direita, seus olhos profundos e azuis. Talvez a velha já estivesse morta. Mas valia a pena arriscar.

Lembrava totalmente do endereço, e o táxi não demorou muito por conta o trânsito tranquilo. Subi as escadas e toquei a campainha. Para minha surpresa, uma moça jovem atendeu.

“Sim?”

“Olá... vim visitar uma venha senhora que vive aqui. Ela se encontra?”

“Ah... sinto muito, mas ela faleceu recentemente.”

Silêncio, pela enésima vez. Cortei-o o mais rápido que pude.

“É uma pena.”

“O senhor era muito próximo dela?”

“Digamos que... ela me deu um presente fantástico, e eu queria muito agradecer.”

“Sim, entendo. Você deseja entrar? Talvez... ver o quarto dela? Está intacto, desde o dia de seu falecimento.”

“Sim, eu adoraria.”

A jovem moça me conduziu pela casa, até o aposento da velha. Era um quarto enorme, completamente cheio de plantas ornamentais, um aquário gigante e triufante na parede, (sem nenhum peixe) e um piano velho no outro canto. Em cima do piano estavam diversas fotos, e um quadro enorme pendurado na parede. A moça se retirou, me deixando a sós no local.

Eu podia sentir o cheiro da vida que ali um dia existiu. Cada passo, cada respiração, cada pulsação da velha estavam impregnados naqueles móveis, naquela cama colossal, naquele vitral em sua janela. Observei cuidadosamente o quadro, e o achei fabuloso. Tratava-se de uma mulher jovem, de costas, mas as sombras em suas costas revelavam um homem, como se a espreitasse se trocar. Lindíssimo, sutil, fiquei alguns minutos o admirando, e baixei para os quadros. Várias pessoas, mas não vi nenhuma foto dela. Sentei num sofá que havia ali do lado enquanto pegava um album que havia sido deixado em cima do piano. Estava empoeirado, mas era lógico, ninguém dava a mínima para as lembranças da velha, afinal, era só uma velha, como ela mesmo disse, sem família. Abri o livro e o que eu vi fez meu corpo reagir como um cano de descarga. Foi pior que maconha, muito pior que cocaína, foi pior que heroína. Foi uma overdose do passado. A foto que eu via no album era idêntica a foto que eu tinha no meu bolso. A velha, aquela velha que me trouxera a morte, não, não poderia. Olhei para os lados, exasperado. Passei a mão na cabeça e não sei explicar, uma sensação de “acorda” tomou conta, mas não era um sonho, eu sabia que não era, a atmosfera era diferente. Esbocei um movimento de saída do quarto, esbocei um movimento de choro, respirei ofegante e conferi as fotos. Eram iguais. A velha era ela. A velha era a mulher da cicatriz. A velha era a minha mãe.

Por fim, eu gargalhei. Tão alto e tão medonho que a jovem moça entrou no quarto correndo, mas o êxtase percorreu meu corpo de forma tão intensa que desabei a chorar e a gritar. Ela tentou me fazer reagir mas eu nem a via mais. Minha mente estava no quadro, o quadro acima do piano. A assinatura de meu pai, bem abaixo da moldura, que eu não havia reconhecido. Um quadro, feito por um cego. Uma velha portadora de geostigma que desapareceu. Por que? Que razões teria uma mãe de abandonar seu próprio filho? Que razões teria sua mãe de se esconder do mundo? Não compreendia. Não entendia, queria evitar todas as respostas ruins. A mãe que eu sempre desejei estava ali. A prostituta imunda que me gerou em meio a uma chantagem deu-me a morte como prêmio de consolação. Eu engoli seu sangue. Eu engoli o sangue de minha mãe.

Hoje, estou internado. Já faz quatro meses desde o dia em que fui na casa da velha com geostigma, da prostituta, da mãe ausente, da mulher, enfim, são tantos títulos, mas a essência... ah, eu sinto que sempre foi a mesma. Hoje eu vejo as coisas com clareza. Vou morrer, a sinto perto... Não tem ninguém aqui para segurar a minha mão, exceto uma enfermeira, quando vem checar alguma coisa. Não antendo os telefonemas de Julia, acho justo que ela não faça a menor idéia do que aconteceu comigo. Quero morrer em paz. Reecontrarei minha mãe no inferno? Ah... inferno é onde estamos agora, meu amigo. Nem quero pensar como é o lugar para onde vamos depois da morte.



FIM

segunda-feira, 4 de abril de 2011

MÃO DIREITA |||| parte 03&04 ***#****

***

Minha amante tomou o ultimo gole. Já era a sua segunda taça, e já esperava que ela pedisse a terceira, como de costume. O restaurante ainda estava cheio, e pelo vidro eu via a entrada do metrô na qual eu provei o sabor a longo prazo da morte, como um licor de cacau, que o azedo só vem quando você termina totalmente o gole. Juliana riu ao observar meus olhos, abosortos no outro lado da rua.

“Por Deus, hoje não. É nosso aniversário!”

“ Eu sei querida, desculpe. É que hoje esbarrei numa senhora muito agradável na entrada do metrô, e logo em seguida a vi sendo assaltada.”

“Cristo!, e o que houve?”

“Bem, ela perdeu sua bolsa.”

“ Isso é um absurdo, não havia nenhum policial por perto?”

“Não.”

“Nem ninguém para ajudar?”

“Não.”

“Isso é terrível.”

“Isso é São Paulo”

“Não seja tolo. Assaltos acontecem até nas menores cidades. É terrível como as pessoas são tão egoístas.”

“E você teria feito alguma coisa, Juliana?”

Nunca ouviria a resposta dela, entretanto. Nesse momento, fomos interrompidos pelo garçom, nos indagando sobre mais alguma coisa.

“Mais uma taça de Luigi Bosca, por favor”

O garçom se retirou.

“Você e seus vinhos argentinos.” retruquei.

Instantes depois, e novamente o garçom repouosu a taça sobre a mesa. Juliana levou ao rosto, sentiu seu odor profundamente, e bebeu um gole modesto.

O vinho e a música sempre foram para mim um magnífico saca-rolhas.”

“Ah, claro...” Não pude deixar de rir. Juliana, citando Tchékhov, me fazia perceber que grande mulher era aquela. Pensei em desistir... mas eu tinha de dizer. No momento certo.

“Entregou a foto?” Ela perguntou. Hesitei.

“Houve o impreviso do assalto, conforme eu disse. Não pude fazer nada.”

“Entendo.”

E matou a bebida num único movimento.

Eu vivia num loft confortável, razoavelmente localizado, sem muitos móveis e sempre muito limpo. Deitei-me no sofá quando entrei na casa, ao som dos carros lá em baixo, das pessoas falando alto, do vento soprando incansável na minha janela. Fechei os olhos com força. Confesso que cogitei o suicídio antes, mas não, era demasiado covarde para tirar minha própria vida. Respirei aliviado ao lembrar que Deus ouviu minhas preces. Enfim, morreria. E seria logo. Peguei minha camisa suja de sangue, o sangue de um portador de geostigma, e o lambi. O esfreguei em meu rosto, o inalei, arranquei um pedaço e engoli. Ao meu lado jazia uma garrafa vazia de Martini, uma tela, e o que deveria ser uma pintura. Não gostava de nenhuma pintura minha. Estocava os quadros e nunca havia mostrado a ninguém. Chorei, talvez fosse o álcool, talvez fosse a felicidade de saber que morreria, ou a tristeza de saber que ela nunca mais voltaria. Não vou mais entregar a foto para ele. Morrei com ela em meu peito.

Desempilhei meus quadros, lentamente, só para lembrar-me deles, do que eu senti quando os pintei, do que eu estava vestindo e como estava o clima do lado de fora da casa, encontrei então o que mais significava para mim. Encostei meu dedo no borrão de tinta que ele disse que faria. Foi a última coisa que eu ouvi meu pai me dizer.

Agora eu vejo, todos os borrões aleatórios, mas eu nunca esqueci qual era o dele. A inicial de meu nome, em amarelo, no canto superior da tela, no meio de um oceano de cores e riscos, que me lembravam o que eu sentia quando o via. Algo terrivelmente forte, abstrato, e ao mesmo tempo, nulo. Retirei com carinho aquele quadro, e lembrei-me de toda a história. Suspirei, e peguei o telefone.

“Julia? Preciso lhe falar. Onde você está?”

O apartamento de Julia era muito maior que o meu, muito mais luxuoso, impecavelmente decorado. Descobri com o tempo que adornos dizem muito sobre a personalidade de uma mulher, inclusive seus vícios. Como vinho. Encontrei-na em sua Adega, apreciando carinhosamente uma garrafa, que para mim, era só mais uma garrafa qualquer.

“Sua voz pareceu-me amedrontada. O que houve, querido?”

“ Preciso conversar com você. Desabafar.”

“Sei... parece até que somos namorados, agora.” Ela sorriu. Era madura o suficiente para não se enganar. A amizade era um pretexo. A motivação era o sexo. Os presentes que eu dera? Os lugares em que a levei? Apenas uma prostituição disfarçada.

“Me dei conta de que, apesar de tudo, é a única amiga que eu tenho.”

“ Você quer sexo, não é?”

“Você...” Ri.

“Depois do sexo você estará relaxado. Venha, deixe-me tirar suas roupas...”

Transamos e eu me senti como na última vez. Muitas vezes eu fiz sexo, e me dei conta, nunca havia feito amor. A boca de Julia em meu peito era quente, mas não era uma boca apaixonada. Minha personalidade fingida de um ser gélido me proibira de sentir falta de algo além do instinto. Algo mais próximo do psicológico.

Julia deitou em meio ombro, enquanto fumava seu cigarro, e estranhou quando neguei um no momento em que fui oferecido.

“A coisa deve ser séria mesmo. Para você se dar ao luxo de negar um L.A.”

“Julia, você sempre me perguntou sobre o meu passado. Sinto que eu devo lhe dizer, agora.”

“Sente? E porque?”

Respirei fundo. “Julia, eu vou morrer”

E tudo que ela fez ao ouvir, foi tragar seu cigarro até que as cinzas cairam sobre sue peito nu. Engraçado, sempre usei vírgulas nas minhas frases, e nunca pensei o quão é importante o uso de um ponto final.

“O que você tem? Aidis?”

Compreendi então o medo dela. “Claro que não. Eu lhe mostrei o exame, lembra?”

“Foi só uma pergunta, querido. O que é então?”

“Antes, gostaria de te contar tudo.”

****

O menino tinha 13 anos. Sua libido era irregular, para a sua idade. Pelo menos era isso que as pessoas acreditavam, ao seu redor. Tinha um interesse pelo sexo oposto muito maior do que seu interesse pela pintura, que erao que ocupava quase todo o seu tempo. Ela era muito mais velha. Ela tinha uns 25 anos, elegante e esbelta, e solteira. Sua beleza era radiante, suas curvas eram perfeitas e seus lábios eram delicados e vermelhos como uma pitanga madura. Seu andar era requintado, e seu jeito gentil foi o suficiente para que o menino se apaixonasse perdidamente por ela. Ela vivia há apenas algumas casas de distância, e vivia sozinha. Ninguém da vizinhança nunca soube nada do passado dela, e ela também nunca fez questão de contar para ninguém. Era sempre muito gentil com todos, mas seu emprego era misterioso, seu passado era misterioso, e todos sabemos como mulheres de vizinhança adoram falar mal de outras mulheres de vizinhança (exceto delas mesmas, é claro).

O menino foi de bicicleta até a varanda da mulher, por voita das onze da noite. Não havia nenhuma pessoa nas proximidades, e ele estava decidido a comer aquela mulher. Olhou cuidadosamente pelo portão, mas a única luz acesa do quarto apagou de repente. Ela dorme cedo, claro... Suspirou triste. Subiu em sua bicicleta quando viu, por uma brecha entre o muro uma mulher andando, pela saída dos fundos da casa. Ele então a seguiu, e viu que era ela. A mulher, saindo escondida, as onze da noite, em direção a uma rua que a conduzia para uma avenida movimentada. Cautelosamente, o menino a seguiu por aquele percurso escuro, que conduzia à uma rua sem iluminação. As casas iam diminuindo e logo ficaria claro a presença dele. Resolveu então baixar a velocidade, e ir devagar, afinal, ela não desconfiaria de uma pessoa andando de bicicleta. O menino perdeu a noção do tempo, e já estava muito, mas muito longe.

Lentamente, as luzes das casas foram dando lugar a uma estradinha mal feita, cercada de mato, mas a mulher continuou caminhando, com seu capuz, e foi quando parou perto do que parecia ser um ponto de ônibus abandonado. Misteriosamente, surgiu de trás da construção outra mulher, trajando pouca roupa, e quando o menino se deu conta, havia mulheres semi-nuas por toda a rua. Voltou seus olhos para a mulher, e viu que por debaixo do capuz havia uma prostituta. Seu coração gelou e parou a bicicleta naquele momento. O tesão subiu a sua cabeça de um modo rápido, sentiu seu membro enrijecer dentro de sua cueca, seu suor frio escorrendo na sua nuca, e foi nessa hora que a mulher o encarou, olho no olho. As duas riram, e ele pensou em simplesmente ir embora, mas ficou paralisado quando viu que a mulher vinha na sua direção.

“Isso não é hora de criança vir brincar.” Ela disse, maliciosamente, quando chegou perto. O menino pode ver, a cicatriz terrível em sua mão direita, que ela tentou inutilmente esconder. Ele ficou instigado, pois nunca havia notado antes.

“Eu não sou criança” Ele voltou para ela.

“Ah não? E quantos anos você tem?”

“Treze.” A mulher riu da forma orgulhosa com a qual o menino respondeu.

“Treze... já tem pentelho?”

“Eu... sim.”

Estúpidamente, o garoto mostrou seu pênis, ereto, e a mulher mordeu o lábio.

“Não pedi para ver garoto. Se quizer, custa...”

“Não tenho dinheiro”. Ele a interrompeu “Só estava te seguindo.”

“Você o quê?!” Ela mudou sua expressão. O menino sentiu-se bem quando percebeu que o controle havia mudado de lado.

“Eu te segui desde sua casa. Eu moro quase do lado. Eu sei quem você é.”

---

“Agora eu acho que entendo” Disse Julia, séria. É lógico que eu fazia força para não chorar. Esse tipo de lembrança dói.

“Bem, deixe-me continuar. Onde foi que eu parei?

“Na barganha” Julia se endireitou, olhando com mais atenção. O frio na barriga ainda me estava suportável. Respirei fundo antes de continuar.

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A mulher olhou novamente para o ponto de ônibus, onde sua amiga aguardava rindo, esperando que a brincadeira terminasse logo. No interior dela, entretanto, ela sentia um medo cuja origem ela não compreendia, afinal, era só um menino. O que um menino poderia fazer? Contar tudo? Espalhar rumores? Instigar ainda mais as vizinhas? Ela não podia arriscar.

“Menino, o que você quer?”

“Quero te comer” Ele foi rápido, direto, já não tremia mais. A mulher engoliu em seco.

“Podemos ir para o mato. Você por acaso tem...”

“Eu quero gozar dentro de você”.

“Nunca.” Rápido demais. O menino tinha o controle agora.

“Voltarei e contarei tudo a todos. Destruirei sua vida.”

“É só eu me mudar daquele lugar.”

“Você pode sair dali. Mas seu nome... seu nome vai ser o mesmo onde quer que você esteja.” Ele sorriu. A mulher estremeceu de medo. Aquilo simplesmente não podia estar acontecendo.

“Tudo bem. Você vai ejacular dentro de mim. Vamos logo.”

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Júlia deixou escapar um gemido, horrorizada. O que eu podia fazer? Apenas ignorei, dando a ela um tempo para digerir tudo. Foi, de fato, uma chantagem ridícula, imatura, desumana, mas aconteceu, e nada mudaria isso.

“Continue, por favor” Julia replicou de repente, baixo.

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O menino penetrou na mulher de forma selvagem, e era seu primeiro contato de verdade com o sexo, pela primeira vez não acontecia em sua mente, pela primeira vez o combustível não era fúteis desejos que circulavam no interior da sua imaginação pervertida, dessa vez, era real. O prazer veio e durante seu curto tempo de duração fez o menino acreditar que poderia morrer, que sua vida valia nada mais do que um mero orgasmo. Quando abriu os olhos e viu a terra, o mato, as formigas e a ausência de luz, percebeu que ainda estava dentro da mulher, que o observava, séria.

“Você não teve orgasmo” Ele disse.

“Claro que não. Fingi todos os meus gemidos. Sempre faço isso.”

“Agora você vai engravidar?”

“Não vou deixar que isso aconteça, não se preocupe.”

“Saiba que você foi a minha primeira.”

“Eu sei. Eu percebi sua falta de experiencia. Seus modos desajeitados...”

“Quero voltar a te ver. Posso?”

“Menino... eu...”

“Por favor?” Ele sorriu. A mulher riu, rouca, sentindo que já não havia nada dentro dela. Levantou-se, nua, e vestiu suas roupas novamente.

Todos os dias, durante a tarde, o menino visitava a mulher em sua casa, e transavam. Amor ou não, o menino chegou num ponto em que não queria mais que ela se prostituisse.

“Você é só minha.”

“Eu não sou de ninguém, muleque. Eu dou para quem eu quero, e vivo disso. Não tenho orgulho, mas orgulho não mata fome, no fim das contas.”

Não demorou muito para que a tragédia acontecesse. O menino entrou em sua casa no momento em que sua mãe era estuprada por um, e sua irmã, de doze anos, por outro. Eles gemiam alto, e a violentavam, mas o menino ficou parado, sem saber o que fazer. Seu pai estava amarrado, gritando palavras incompreensíveis de longe, pois o pano em sua boca não o permitia de fato, falar. O menino deu um passo para trás, quando um outro homem o agarrou pelo cabelo, e o jogou violentamente perto do pai.

“Mate-o logo.” Gritou um deles. O menino respirou, o medo falando mais alto do que tudo, o desespero fazendo tudo se tornando negro, uma grande imensidão negra, e viu seu pai cair morto diante de seu colo. Seus olhos de vidro o fitavam carinhosamente enquanto o sangue escorria do buraco da bala, e foi a última coisa que ele viu. A escuridão tornou-se o tudo, e o tudo, tornou-se um campo negro sem fim.

Quando o menino acordou, não fazia idéia de onde estava. Apenas ouvia o silêncio, gritando em seus ouvidos, enquanto sua alma suplicava pela morte. Ouviu então vozes, e percebeu que estava seguro.

Sua cegueira era temporária, mas nenhum médico poderia dizer o tempo exato. O menino seria entregue à adoção, uma vez que sua família deixara de existir. Foi quando uma mulher apareceu, e o adotou.

Agora, o menino era filho da mulher da cicatriz. Parecia doentio, mas isso só aumentava o prazer durante o sexo. Quando ele completou dezesseis anos, a mulher desapareceu, mas deixo com ele o fruto. A criança, gerada no dia em que perdeu sua virgindade.

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“Meu Deus.” Julia estava apavorada. Olhava de pé para mim, com lágrimas nos olhos, corpo trêmulo e eu via que sua mente oscilava entre acreditar ou não.

“Julia, fique calma” Tentei acalmá-la.

“Você...” Ela começou “Você é o menino?”

“Não.” Respondi. “Eu sou a criança.”



continua...

domingo, 3 de abril de 2011

MÃO DIREITA |||| parte 02 **

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Sempre odiei telefones celulares. Os abominei quando começaram a surgir, coisa minha, sem explicação lógica, apenas uma questão de química, de afinidade. Os leigos chamam de praticidade, eu chamo de poluição invisível, de paliativo, de pretexto para luxúria. Mas vivo no sistema, e quem tem escolhas nesse sistema? É claro que eu tinha um celular. Ainda me restava algum crédito, e era o suficiente para chamar a ajuda que ela precisava. As pessoas viam o sangue pelo chão e corriam. As curiosas pararam longe, mas ninguém teve a gentileza de tentar ajudar. Onde estão os técnicos em enfermagem nessas horas? Para que diabos eles estudam? A vida na teoria é tão simplória que quando a realidade a rebate, todos caem. Todos, inclusive eu. A morte dela seria minha culpa. Não a ajudava por compaixão. Era simplesmente medo da culpa. Não tinha problema algum em admitir isso, pelo menos não para mim mesmo.

“ Não chame a ambulância, por favor...” Ela suplicava. Mas não fazia sentido, ela iria morrer!

“ Senhora, você está no meio de uma crise. Preciso ligar para a emergência. Rápido, preciso do número da sua família.”

“ Família? Então largue-me aqui. A rua é a única família que eu tenho, jovem. Por favor, deixe-me morrer.”

Empalideci. Senti meu lábio querer rir, mas não podia rir. Não na frente dela.

“ É geostigma. Não é?”

Ela choramingou, bufando muito, respirando muito rápido. O filete de sangue em sua boca tinha uma coloração diferente. Era pus.

“ Sim. Vocês estão todos infectados.”

Não consegui suportar. Ri. Gargalhei inacreditavelmente, converti todos os meus rancores em riso, joguei tudo para o vento, desequilibrei-me, mas permaneci de pé. A epidemia de geostigma era o assunto mais discutido no mundo. Causa desconhecida, era uma doença incrivelmente contagiosa, apenas o mínimo contato com o sangue de um infectado era o suficiente. E matava em questão de dias. A mídia só falava sobre isso, o governo tentava soluções, os ricos fugiam, e enquanto isso, todos morriam lentamente.

“Quem diria. Vou morrer porque esbarrei em alguém com geostigma... pior o ladrão, que teve o azar... ou a sorte de roubar a pessoa errada, na hora errada. Mas veja bem, minha senhora... com a doença ou sem, não vamos todos morrer?”

Ela apenas me olhou. Sua respiração estava mais calma, e as pessoas foram seguindo seus rumos, lentamente... foi um alívio ver a concentração de pessoas se desfazendo, a rua voltando a ser simplesmente mais uma rua da cidade. Entretanto, de dentro do metrô, subiu pelas escadas um policial, autoritário, apenas tentando dar a si mesmo uma razão que justificasse seu pagamento no fim do mês.

“O que esta havendo aqui?” Ele perguntou, naturalmente grosseiro. Não sei explicar, mas o que eu senti, naquele momento, era um sentimento sem nome, talvez nunca sentido antes por ninguém no mundo.

“Estou ajudando uma senhora com geostigma.” Pensei melhor. Seria muito egocentrismo da minha parte achar que ninguém jamais sentira o que havia adentrado meu peito naquele momento. Haveria de ter um nome.

Geostigma...?” O policial deceu dois degraus. Estremeceu as pálpebras, tomou fôlego como se fosse pronunciar alguma palavra, mas permaneceu quieto. O porte que outrora fizera questão de evidenciar agora estava comprometido. E por causa de algo tão inevitável, tão óbvio, tão cru. Onde está a autoridade agora, policial? Venha, se aproxime. Morrer é a exceção para seu ego?

“ Irei chamar uma ambulância... ela não pode ficar exposta - -“

“ Por favor, senhor, não se trata de lepra.” Ela se levantou, e para o meu espanto, com uma elegância fora do comum. “Foi apenas uma crise. Eu sempre trago comigo meu lenço, não há perigo de contaminação se a distância não for muito curta. Sinto-me bem melhor agora, já posso caminhar para casa.”.

O policial ficou com medo, é claro. Já esperava tal reação, a mesma que eu tive de comprometer o meu envelope, ou do ladrão de ter pego a doença da velha. Coitado, mal ele sabe o que contraíra. Em cerca de um mês os sintomas entrarão em evidência, e irá mergulhar em total desespero.

Não demorou muito para que o policial se retirasse, e a tempestada desabava fortemente do lado de fora. Sentei-me, encostado no vidro que revestia a tapagem da entrada, e acendi um cigarro, sem me importar com a senhora. Fui surpreendido.

“ Teria mais um, jovem? Se não for pedir muito.”

“ Não sabia que você fumava.”

“ São as velhas e velhos quem deveriam fumar, não os jovens... vocês estão se matando aos poucos, nós já estamos na reta final.”

Sábias palavras.

“Deixe-me lhe pegar um, permita-me...” Entreguei-a um cigarro – o último – e o acendi com destreza; O primeiro trago pareceu a ela como um orgasmo, seguido de uma rizada trêmula.

“Confesso que fiquei assustada. Achei que você fosse o bandido, e o homem meu salvador. Incrível como uma situação varia dependendo do ponto de vista.”

“Sim. Perdão o esbarrão, achei que molharia meu envelope...” E ela olhou maliciosa.

“Percebi o envelope, e seu cuidado com ele. Posso atrever-me a perguntar sobre seu conteúdo?”

“Ah.” Veio como um relâmpago, “É uma foto. Significa muito para mim. Iria levá-la até a casa de um...” Pensei no adjetivo apropriado. “... amigo.”

“Entendo. Você pressentiu a chuva, e ficou com medo de que o envelope se molhasse e danificasse a foto.”

“Isso...” Fiquei ligeiramente triste. Estava completamente atrasado, e não sei até quanto tempo meu amigo me esperaria. Podia dar adeus e descer para o metrô, mas não deixaria aquela senhora sozinha. Minha coinsciência não me permitiria.

“Mas então, fale-me de você. Estuda? Trabalha? Namora?”

“ Estou terminando minha faculdade. Faço Ciências da Computação, estou finalizando minha monografia. Trabalho na bolsa da faculdade, mas não tenho tempo para namoradas.”

“E namorados?” A velha olhou de esguelha para meus lábios.

“Ah, não sou gay, felizmente ou não.” E ri. Nunca haviam me perguntado tal coisa. Resolvi embarcar no sarcamo. “E você? Se considera gay? Gays velhas devem ser o máximo...”

“Gay? Eu? Não, árvores são muito mais atraentes do que homens ou mulheres.” Gargalhou baixo, disfarçando uma tosse leve. Não houve sangue, mas não me afastei.

“Boa resposta.” Eu disse, ignorando o silêncio depois da tosse.

“Menino, você quer morrer?” Ela perguntou, num tom de voz totalmente diferente dos demais “Você está próximo de mim. O bacilo que causa o geostigma provavelmente já está em seu organismo. Se você correr e se vacinar irá conseguir a imunidade. O que é isso? Conformismo?”

“Minha senhora, eu não sou tolo o bastante para confundir conformismo com o ato de ignorar. Apenas ignorei o fato de poder contrair a doença. Estou no fundo do poço. Já não me importo mais.”

“Adoro o valor que os jovens dão as suas vidas. Envelhecer para uns é uma maldição... mas no fim, é um milagre.” E tragou, formosamente.

O silêncio se estendeu. Apertei de leve o envelope, a imagem da foto refletindo na minha mente. Claro que tenho medo de morrer. Mas também tenho medo de viver. Por que diabos nunca encontrei o maldito meio termo?

“Preciso mesmo ir para casa. Deixei minha gata sozinha, e ela está muito doente. Vejo que a chuva está mais calma, acho melhor ir caminhando.” Ela disse, terminando seu cigarro.

“Senhora, não me importo de pagar-lhe um táxi. Eu insisto. Vamos?




continua...

sábado, 2 de abril de 2011

MÃO DIREITA |||| parte 01 *

*

Fazia barulho na cidade. Eu disse barulho? Era música. Só quem passa noites dormindo num beco sabe apreciar a música dos carros passando initerruptos pelo asfalto, ou quando uma moto cruza um vão entre um veículo e outro, permetindo seu doppling soar como a última nota de um contrabaixo. A batida eram os murmúrios, daqueles exasperados que corriam loucos na tentativa falha de evitar as águas que ameaçavam cair. Ora, se os próprios pássaros abandonaram os céus, porque diabos ainda haviam indivíduos que tentavam ir contra o óbvio? Iria chover, quizesse todos ou não. Eu estava ciente disso, a propósito. Nunca abandonara meu guarda-chuva, nem em dias de calor... o havia guardado cuidadosamente dentro de minha maleta, caso o tempo fechasse... minhas intuições estavam corretas, mas mesmo se estivesse muito calor: Ainda que provocasse riso alheio, prefiro me esconder dos raios insuportáveis do sol do que servir de chacota. Chacota passa, um segundo e não se ouve mais o deboche. Agora, o sol... este mancha. E a mancha dói. Na alma.

Fui caminhando até o outro lado da rua, não me recordo o que eu pensava naquele momento. Segurava a foto dela em minha mão, carinhosamente escondida em um envelope, e minha única preocupação (além de molhá-lo) era comprar de uma vez o tícket do trem. Pisei no primeiro degrau que conduzia a paisagem cinza de São Paulo até o metrô quando a primeira gota caiu, irônicamente ou não, na minha mão direita. Meu reflexo foi tamanho que, ao tentar desviar no objetivo de proteger o envelope, golpeei uma senhora que subia na barriga. O som que foi emitido por seus lábios quebrados foi um gemido trêmulo, como se quizesse evidenciar a sua doença. Achei que o sangue que ela cospiu tivesse sido por minha causa, mas horas depois perecebi que não. Na hora, entretanto, um homem que passava viu do ângulo errado, na hora errada, e partiu para cima de mim.

“ Seu desgraçado, o que você está fazendo?”

“ Hei, espere, não estou fazendo nada! Eu apenas - -

Claro que ele não queria saber o que eu estava fazendo. Vira o suficiente para descarregar em mim todo o fracasso da sua vida. Como seres humanos gostam de se sentirem bonzinhos, de se sentirem justos. Hipócritas. Tal como o soco que recebi.

Cambaleei para trás e me apoiei na parede, mantendo o envelope intacto em minha mão. Se esse desgraçado encostar no envelope eu o mato. A velha tossiu, mas o que saiu de sua garganta depois não foi gemido, e sim, voz. Não compreendi a princípo, mas o homem que me batera aproximou-se dela e ajoelhou.

“ O que esse desgraçado te robou?”

“ Não, ele... ele não teve culpa.” A dificuldade dela em falar era clara, e arrepiadora. Estremeci de medo quando a ouvi falar daquela forma. Aquilo era alguma doença de fato muito grave.

“ Não entendo...” balbuciou o homem “ O que houve então?”

“ Eu vinha subindo, ele esbarrou em mim quando desceu.”

“ Mas e o sangue, senhora?” Sim, homem inútil, até que você não é burro. Perguntou exatamente o que estava me intrigando. Ainda tem sangue dela na minha roupa.

“ Eu... prefiro não...” E ela tossiu. O sangue espirrou no pescoço do homem, que se esquivou para trás. O nojo que se desprendeu de seus olhos foi deliciosamente evidenciado. Haha, idiota desprezível. Fingindo se importar com a velha para alimentar sua própria coinsciência, mas no fundo é só mais um egoísta. Olhei para os lados... percebi que temia algo que não existia, afinal, eu já estava com o sangue da velha na minha camisa. O que importava agora? Me aproximei.

“Eu.. .me desculpe, ele entendeu errado... “ Ela começou, mas tentei sorrir ternamente.

“ Não se preocupe, a culpa não foi sua. Você quer ajuda, precisa de um táxi? Uma ambulância, talvez?”

“ Sim, eu... eu estava a caminho do médico, na verdade. Tenho uns exames para pegar.”

“ E você sabe o endereço?”

O homem se levantou. A velha nos observou com cautela, temendo uma nova briga. Na hora eu não entendi o motivo, mas eu via fúria em seu olhar.

“ O que você tem, senhora? Eu sou farmacêutico, talvez possa ajudar.”

Mentiroso.

“ Não é Geostigma, não se preocupe. Estou com a garganta rasgada, isso é tudo.”

Até você, senhora? Geostigma não é nenhuma vergonha!

“ Sim... “ O homem retrucou, confuso. “ Sim, entendo.

Vejamos então, farmacêutico...

“ O que o senhor sugere? Para parar o sangramento?” Disse como uma bala. Senti minha frase cortá-lo ao meio. Não me respondeu. Simplesmente se virou e desceu para o metrô.

“ Ele ficou assustado, não ficou?” A velha disse, trêmula, com suas mãos rugadas contrastadas com suas unhas vermelhas, artísticamente feitas. Eu suspirei fundo.

“ Ele não era um farmacêutico. Ele mentiu, queria saber o que você tem, pois seu sangue havia espirrado na hora em que você tossiu.” Achei melhor ser sincero.

E nada ela disse. O silêncio cortou a escada, e por um segundo, nem os murmúrios, nem o trem, nem os carros, nada, além da respiração da pobre mulher, provocou na minha mente um zumbido perturbador. Nunca o silêncio foi tão ensurdecedor. Foi quando a tempestade desabou. Acordei do meu devaneio, e vi que também chovia nos olhos vividos daquela criatura tão fraca, mas ao mesmo tempo, tão agressiva.

Sacudi a cabeça para espantar os pensamentos inúteis... Era só uma velha. Mas naquele momento... no momento em que vi as lágrimas, eu vi sua vida. Eu vi seu peso. Me senti mal. E, de forma surreal, esqueci-me do envelope, embora ainda o protegesse com a mão direita.

“ Vamos pegar um táxi. Você sabe o endereço da clínica?”

“ Sim. Eu tenho algum dinheiro na bolsa...”

Analisando de forma fria, o que aconteceu depois fora como uma poesia. Os olhos da senhora lentamente foram se tornando desesperados. Suas pupilas dilataram a medida em que sua boca cedia lentamente e abria, trêmula, em harmonia perfeita com seu corpo perdendo o equilíbrio. Notei o desconforto, a movimentação irregular. Ela olhou para as mãos, e em seguida para o chão em que pisava, tudo da forma mais elegante possível. Deixou-se desesperar, por uns instantes, levando as mãos ao rosto suado.

Sim, eu me lembro... Aquela frase foi curta, lenta, mas terrivelmente apavorante.

“ Onde...” Ela disse “Onde está a minha bolsa?”

O homem havia levado. Era isso desde o princípio. Ela era apenas uma velha, era tão evidente! Passara mal na entrada do metrô, um momento muito conveniente para um roubo. E eu deixei-me levar pela tensão da doença, não percebi quando aconteceu. Ninguém percebeu. E quem percebeu simplesmente não viu.

E ela desabou, caiu como uma boneca de pano desgastatada, e suas mãos tremeram mais do que nunca quando tentou manter-se estável, de pé. As pessoas em volta olhavam curiosas, mas é claro, a tempestade era muito mais importante ( e perigosa ) do que uma velha senhora surtando na entrada do metrô.



continue...