sábado, 2 de abril de 2011

MÃO DIREITA |||| parte 01 *

*

Fazia barulho na cidade. Eu disse barulho? Era música. Só quem passa noites dormindo num beco sabe apreciar a música dos carros passando initerruptos pelo asfalto, ou quando uma moto cruza um vão entre um veículo e outro, permetindo seu doppling soar como a última nota de um contrabaixo. A batida eram os murmúrios, daqueles exasperados que corriam loucos na tentativa falha de evitar as águas que ameaçavam cair. Ora, se os próprios pássaros abandonaram os céus, porque diabos ainda haviam indivíduos que tentavam ir contra o óbvio? Iria chover, quizesse todos ou não. Eu estava ciente disso, a propósito. Nunca abandonara meu guarda-chuva, nem em dias de calor... o havia guardado cuidadosamente dentro de minha maleta, caso o tempo fechasse... minhas intuições estavam corretas, mas mesmo se estivesse muito calor: Ainda que provocasse riso alheio, prefiro me esconder dos raios insuportáveis do sol do que servir de chacota. Chacota passa, um segundo e não se ouve mais o deboche. Agora, o sol... este mancha. E a mancha dói. Na alma.

Fui caminhando até o outro lado da rua, não me recordo o que eu pensava naquele momento. Segurava a foto dela em minha mão, carinhosamente escondida em um envelope, e minha única preocupação (além de molhá-lo) era comprar de uma vez o tícket do trem. Pisei no primeiro degrau que conduzia a paisagem cinza de São Paulo até o metrô quando a primeira gota caiu, irônicamente ou não, na minha mão direita. Meu reflexo foi tamanho que, ao tentar desviar no objetivo de proteger o envelope, golpeei uma senhora que subia na barriga. O som que foi emitido por seus lábios quebrados foi um gemido trêmulo, como se quizesse evidenciar a sua doença. Achei que o sangue que ela cospiu tivesse sido por minha causa, mas horas depois perecebi que não. Na hora, entretanto, um homem que passava viu do ângulo errado, na hora errada, e partiu para cima de mim.

“ Seu desgraçado, o que você está fazendo?”

“ Hei, espere, não estou fazendo nada! Eu apenas - -

Claro que ele não queria saber o que eu estava fazendo. Vira o suficiente para descarregar em mim todo o fracasso da sua vida. Como seres humanos gostam de se sentirem bonzinhos, de se sentirem justos. Hipócritas. Tal como o soco que recebi.

Cambaleei para trás e me apoiei na parede, mantendo o envelope intacto em minha mão. Se esse desgraçado encostar no envelope eu o mato. A velha tossiu, mas o que saiu de sua garganta depois não foi gemido, e sim, voz. Não compreendi a princípo, mas o homem que me batera aproximou-se dela e ajoelhou.

“ O que esse desgraçado te robou?”

“ Não, ele... ele não teve culpa.” A dificuldade dela em falar era clara, e arrepiadora. Estremeci de medo quando a ouvi falar daquela forma. Aquilo era alguma doença de fato muito grave.

“ Não entendo...” balbuciou o homem “ O que houve então?”

“ Eu vinha subindo, ele esbarrou em mim quando desceu.”

“ Mas e o sangue, senhora?” Sim, homem inútil, até que você não é burro. Perguntou exatamente o que estava me intrigando. Ainda tem sangue dela na minha roupa.

“ Eu... prefiro não...” E ela tossiu. O sangue espirrou no pescoço do homem, que se esquivou para trás. O nojo que se desprendeu de seus olhos foi deliciosamente evidenciado. Haha, idiota desprezível. Fingindo se importar com a velha para alimentar sua própria coinsciência, mas no fundo é só mais um egoísta. Olhei para os lados... percebi que temia algo que não existia, afinal, eu já estava com o sangue da velha na minha camisa. O que importava agora? Me aproximei.

“Eu.. .me desculpe, ele entendeu errado... “ Ela começou, mas tentei sorrir ternamente.

“ Não se preocupe, a culpa não foi sua. Você quer ajuda, precisa de um táxi? Uma ambulância, talvez?”

“ Sim, eu... eu estava a caminho do médico, na verdade. Tenho uns exames para pegar.”

“ E você sabe o endereço?”

O homem se levantou. A velha nos observou com cautela, temendo uma nova briga. Na hora eu não entendi o motivo, mas eu via fúria em seu olhar.

“ O que você tem, senhora? Eu sou farmacêutico, talvez possa ajudar.”

Mentiroso.

“ Não é Geostigma, não se preocupe. Estou com a garganta rasgada, isso é tudo.”

Até você, senhora? Geostigma não é nenhuma vergonha!

“ Sim... “ O homem retrucou, confuso. “ Sim, entendo.

Vejamos então, farmacêutico...

“ O que o senhor sugere? Para parar o sangramento?” Disse como uma bala. Senti minha frase cortá-lo ao meio. Não me respondeu. Simplesmente se virou e desceu para o metrô.

“ Ele ficou assustado, não ficou?” A velha disse, trêmula, com suas mãos rugadas contrastadas com suas unhas vermelhas, artísticamente feitas. Eu suspirei fundo.

“ Ele não era um farmacêutico. Ele mentiu, queria saber o que você tem, pois seu sangue havia espirrado na hora em que você tossiu.” Achei melhor ser sincero.

E nada ela disse. O silêncio cortou a escada, e por um segundo, nem os murmúrios, nem o trem, nem os carros, nada, além da respiração da pobre mulher, provocou na minha mente um zumbido perturbador. Nunca o silêncio foi tão ensurdecedor. Foi quando a tempestade desabou. Acordei do meu devaneio, e vi que também chovia nos olhos vividos daquela criatura tão fraca, mas ao mesmo tempo, tão agressiva.

Sacudi a cabeça para espantar os pensamentos inúteis... Era só uma velha. Mas naquele momento... no momento em que vi as lágrimas, eu vi sua vida. Eu vi seu peso. Me senti mal. E, de forma surreal, esqueci-me do envelope, embora ainda o protegesse com a mão direita.

“ Vamos pegar um táxi. Você sabe o endereço da clínica?”

“ Sim. Eu tenho algum dinheiro na bolsa...”

Analisando de forma fria, o que aconteceu depois fora como uma poesia. Os olhos da senhora lentamente foram se tornando desesperados. Suas pupilas dilataram a medida em que sua boca cedia lentamente e abria, trêmula, em harmonia perfeita com seu corpo perdendo o equilíbrio. Notei o desconforto, a movimentação irregular. Ela olhou para as mãos, e em seguida para o chão em que pisava, tudo da forma mais elegante possível. Deixou-se desesperar, por uns instantes, levando as mãos ao rosto suado.

Sim, eu me lembro... Aquela frase foi curta, lenta, mas terrivelmente apavorante.

“ Onde...” Ela disse “Onde está a minha bolsa?”

O homem havia levado. Era isso desde o princípio. Ela era apenas uma velha, era tão evidente! Passara mal na entrada do metrô, um momento muito conveniente para um roubo. E eu deixei-me levar pela tensão da doença, não percebi quando aconteceu. Ninguém percebeu. E quem percebeu simplesmente não viu.

E ela desabou, caiu como uma boneca de pano desgastatada, e suas mãos tremeram mais do que nunca quando tentou manter-se estável, de pé. As pessoas em volta olhavam curiosas, mas é claro, a tempestade era muito mais importante ( e perigosa ) do que uma velha senhora surtando na entrada do metrô.



continue...

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