domingo, 3 de abril de 2011

MÃO DIREITA |||| parte 02 **

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Sempre odiei telefones celulares. Os abominei quando começaram a surgir, coisa minha, sem explicação lógica, apenas uma questão de química, de afinidade. Os leigos chamam de praticidade, eu chamo de poluição invisível, de paliativo, de pretexto para luxúria. Mas vivo no sistema, e quem tem escolhas nesse sistema? É claro que eu tinha um celular. Ainda me restava algum crédito, e era o suficiente para chamar a ajuda que ela precisava. As pessoas viam o sangue pelo chão e corriam. As curiosas pararam longe, mas ninguém teve a gentileza de tentar ajudar. Onde estão os técnicos em enfermagem nessas horas? Para que diabos eles estudam? A vida na teoria é tão simplória que quando a realidade a rebate, todos caem. Todos, inclusive eu. A morte dela seria minha culpa. Não a ajudava por compaixão. Era simplesmente medo da culpa. Não tinha problema algum em admitir isso, pelo menos não para mim mesmo.

“ Não chame a ambulância, por favor...” Ela suplicava. Mas não fazia sentido, ela iria morrer!

“ Senhora, você está no meio de uma crise. Preciso ligar para a emergência. Rápido, preciso do número da sua família.”

“ Família? Então largue-me aqui. A rua é a única família que eu tenho, jovem. Por favor, deixe-me morrer.”

Empalideci. Senti meu lábio querer rir, mas não podia rir. Não na frente dela.

“ É geostigma. Não é?”

Ela choramingou, bufando muito, respirando muito rápido. O filete de sangue em sua boca tinha uma coloração diferente. Era pus.

“ Sim. Vocês estão todos infectados.”

Não consegui suportar. Ri. Gargalhei inacreditavelmente, converti todos os meus rancores em riso, joguei tudo para o vento, desequilibrei-me, mas permaneci de pé. A epidemia de geostigma era o assunto mais discutido no mundo. Causa desconhecida, era uma doença incrivelmente contagiosa, apenas o mínimo contato com o sangue de um infectado era o suficiente. E matava em questão de dias. A mídia só falava sobre isso, o governo tentava soluções, os ricos fugiam, e enquanto isso, todos morriam lentamente.

“Quem diria. Vou morrer porque esbarrei em alguém com geostigma... pior o ladrão, que teve o azar... ou a sorte de roubar a pessoa errada, na hora errada. Mas veja bem, minha senhora... com a doença ou sem, não vamos todos morrer?”

Ela apenas me olhou. Sua respiração estava mais calma, e as pessoas foram seguindo seus rumos, lentamente... foi um alívio ver a concentração de pessoas se desfazendo, a rua voltando a ser simplesmente mais uma rua da cidade. Entretanto, de dentro do metrô, subiu pelas escadas um policial, autoritário, apenas tentando dar a si mesmo uma razão que justificasse seu pagamento no fim do mês.

“O que esta havendo aqui?” Ele perguntou, naturalmente grosseiro. Não sei explicar, mas o que eu senti, naquele momento, era um sentimento sem nome, talvez nunca sentido antes por ninguém no mundo.

“Estou ajudando uma senhora com geostigma.” Pensei melhor. Seria muito egocentrismo da minha parte achar que ninguém jamais sentira o que havia adentrado meu peito naquele momento. Haveria de ter um nome.

Geostigma...?” O policial deceu dois degraus. Estremeceu as pálpebras, tomou fôlego como se fosse pronunciar alguma palavra, mas permaneceu quieto. O porte que outrora fizera questão de evidenciar agora estava comprometido. E por causa de algo tão inevitável, tão óbvio, tão cru. Onde está a autoridade agora, policial? Venha, se aproxime. Morrer é a exceção para seu ego?

“ Irei chamar uma ambulância... ela não pode ficar exposta - -“

“ Por favor, senhor, não se trata de lepra.” Ela se levantou, e para o meu espanto, com uma elegância fora do comum. “Foi apenas uma crise. Eu sempre trago comigo meu lenço, não há perigo de contaminação se a distância não for muito curta. Sinto-me bem melhor agora, já posso caminhar para casa.”.

O policial ficou com medo, é claro. Já esperava tal reação, a mesma que eu tive de comprometer o meu envelope, ou do ladrão de ter pego a doença da velha. Coitado, mal ele sabe o que contraíra. Em cerca de um mês os sintomas entrarão em evidência, e irá mergulhar em total desespero.

Não demorou muito para que o policial se retirasse, e a tempestada desabava fortemente do lado de fora. Sentei-me, encostado no vidro que revestia a tapagem da entrada, e acendi um cigarro, sem me importar com a senhora. Fui surpreendido.

“ Teria mais um, jovem? Se não for pedir muito.”

“ Não sabia que você fumava.”

“ São as velhas e velhos quem deveriam fumar, não os jovens... vocês estão se matando aos poucos, nós já estamos na reta final.”

Sábias palavras.

“Deixe-me lhe pegar um, permita-me...” Entreguei-a um cigarro – o último – e o acendi com destreza; O primeiro trago pareceu a ela como um orgasmo, seguido de uma rizada trêmula.

“Confesso que fiquei assustada. Achei que você fosse o bandido, e o homem meu salvador. Incrível como uma situação varia dependendo do ponto de vista.”

“Sim. Perdão o esbarrão, achei que molharia meu envelope...” E ela olhou maliciosa.

“Percebi o envelope, e seu cuidado com ele. Posso atrever-me a perguntar sobre seu conteúdo?”

“Ah.” Veio como um relâmpago, “É uma foto. Significa muito para mim. Iria levá-la até a casa de um...” Pensei no adjetivo apropriado. “... amigo.”

“Entendo. Você pressentiu a chuva, e ficou com medo de que o envelope se molhasse e danificasse a foto.”

“Isso...” Fiquei ligeiramente triste. Estava completamente atrasado, e não sei até quanto tempo meu amigo me esperaria. Podia dar adeus e descer para o metrô, mas não deixaria aquela senhora sozinha. Minha coinsciência não me permitiria.

“Mas então, fale-me de você. Estuda? Trabalha? Namora?”

“ Estou terminando minha faculdade. Faço Ciências da Computação, estou finalizando minha monografia. Trabalho na bolsa da faculdade, mas não tenho tempo para namoradas.”

“E namorados?” A velha olhou de esguelha para meus lábios.

“Ah, não sou gay, felizmente ou não.” E ri. Nunca haviam me perguntado tal coisa. Resolvi embarcar no sarcamo. “E você? Se considera gay? Gays velhas devem ser o máximo...”

“Gay? Eu? Não, árvores são muito mais atraentes do que homens ou mulheres.” Gargalhou baixo, disfarçando uma tosse leve. Não houve sangue, mas não me afastei.

“Boa resposta.” Eu disse, ignorando o silêncio depois da tosse.

“Menino, você quer morrer?” Ela perguntou, num tom de voz totalmente diferente dos demais “Você está próximo de mim. O bacilo que causa o geostigma provavelmente já está em seu organismo. Se você correr e se vacinar irá conseguir a imunidade. O que é isso? Conformismo?”

“Minha senhora, eu não sou tolo o bastante para confundir conformismo com o ato de ignorar. Apenas ignorei o fato de poder contrair a doença. Estou no fundo do poço. Já não me importo mais.”

“Adoro o valor que os jovens dão as suas vidas. Envelhecer para uns é uma maldição... mas no fim, é um milagre.” E tragou, formosamente.

O silêncio se estendeu. Apertei de leve o envelope, a imagem da foto refletindo na minha mente. Claro que tenho medo de morrer. Mas também tenho medo de viver. Por que diabos nunca encontrei o maldito meio termo?

“Preciso mesmo ir para casa. Deixei minha gata sozinha, e ela está muito doente. Vejo que a chuva está mais calma, acho melhor ir caminhando.” Ela disse, terminando seu cigarro.

“Senhora, não me importo de pagar-lhe um táxi. Eu insisto. Vamos?




continua...

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