segunda-feira, 4 de abril de 2011

MÃO DIREITA |||| parte 03&04 ***#****

***

Minha amante tomou o ultimo gole. Já era a sua segunda taça, e já esperava que ela pedisse a terceira, como de costume. O restaurante ainda estava cheio, e pelo vidro eu via a entrada do metrô na qual eu provei o sabor a longo prazo da morte, como um licor de cacau, que o azedo só vem quando você termina totalmente o gole. Juliana riu ao observar meus olhos, abosortos no outro lado da rua.

“Por Deus, hoje não. É nosso aniversário!”

“ Eu sei querida, desculpe. É que hoje esbarrei numa senhora muito agradável na entrada do metrô, e logo em seguida a vi sendo assaltada.”

“Cristo!, e o que houve?”

“Bem, ela perdeu sua bolsa.”

“ Isso é um absurdo, não havia nenhum policial por perto?”

“Não.”

“Nem ninguém para ajudar?”

“Não.”

“Isso é terrível.”

“Isso é São Paulo”

“Não seja tolo. Assaltos acontecem até nas menores cidades. É terrível como as pessoas são tão egoístas.”

“E você teria feito alguma coisa, Juliana?”

Nunca ouviria a resposta dela, entretanto. Nesse momento, fomos interrompidos pelo garçom, nos indagando sobre mais alguma coisa.

“Mais uma taça de Luigi Bosca, por favor”

O garçom se retirou.

“Você e seus vinhos argentinos.” retruquei.

Instantes depois, e novamente o garçom repouosu a taça sobre a mesa. Juliana levou ao rosto, sentiu seu odor profundamente, e bebeu um gole modesto.

O vinho e a música sempre foram para mim um magnífico saca-rolhas.”

“Ah, claro...” Não pude deixar de rir. Juliana, citando Tchékhov, me fazia perceber que grande mulher era aquela. Pensei em desistir... mas eu tinha de dizer. No momento certo.

“Entregou a foto?” Ela perguntou. Hesitei.

“Houve o impreviso do assalto, conforme eu disse. Não pude fazer nada.”

“Entendo.”

E matou a bebida num único movimento.

Eu vivia num loft confortável, razoavelmente localizado, sem muitos móveis e sempre muito limpo. Deitei-me no sofá quando entrei na casa, ao som dos carros lá em baixo, das pessoas falando alto, do vento soprando incansável na minha janela. Fechei os olhos com força. Confesso que cogitei o suicídio antes, mas não, era demasiado covarde para tirar minha própria vida. Respirei aliviado ao lembrar que Deus ouviu minhas preces. Enfim, morreria. E seria logo. Peguei minha camisa suja de sangue, o sangue de um portador de geostigma, e o lambi. O esfreguei em meu rosto, o inalei, arranquei um pedaço e engoli. Ao meu lado jazia uma garrafa vazia de Martini, uma tela, e o que deveria ser uma pintura. Não gostava de nenhuma pintura minha. Estocava os quadros e nunca havia mostrado a ninguém. Chorei, talvez fosse o álcool, talvez fosse a felicidade de saber que morreria, ou a tristeza de saber que ela nunca mais voltaria. Não vou mais entregar a foto para ele. Morrei com ela em meu peito.

Desempilhei meus quadros, lentamente, só para lembrar-me deles, do que eu senti quando os pintei, do que eu estava vestindo e como estava o clima do lado de fora da casa, encontrei então o que mais significava para mim. Encostei meu dedo no borrão de tinta que ele disse que faria. Foi a última coisa que eu ouvi meu pai me dizer.

Agora eu vejo, todos os borrões aleatórios, mas eu nunca esqueci qual era o dele. A inicial de meu nome, em amarelo, no canto superior da tela, no meio de um oceano de cores e riscos, que me lembravam o que eu sentia quando o via. Algo terrivelmente forte, abstrato, e ao mesmo tempo, nulo. Retirei com carinho aquele quadro, e lembrei-me de toda a história. Suspirei, e peguei o telefone.

“Julia? Preciso lhe falar. Onde você está?”

O apartamento de Julia era muito maior que o meu, muito mais luxuoso, impecavelmente decorado. Descobri com o tempo que adornos dizem muito sobre a personalidade de uma mulher, inclusive seus vícios. Como vinho. Encontrei-na em sua Adega, apreciando carinhosamente uma garrafa, que para mim, era só mais uma garrafa qualquer.

“Sua voz pareceu-me amedrontada. O que houve, querido?”

“ Preciso conversar com você. Desabafar.”

“Sei... parece até que somos namorados, agora.” Ela sorriu. Era madura o suficiente para não se enganar. A amizade era um pretexo. A motivação era o sexo. Os presentes que eu dera? Os lugares em que a levei? Apenas uma prostituição disfarçada.

“Me dei conta de que, apesar de tudo, é a única amiga que eu tenho.”

“ Você quer sexo, não é?”

“Você...” Ri.

“Depois do sexo você estará relaxado. Venha, deixe-me tirar suas roupas...”

Transamos e eu me senti como na última vez. Muitas vezes eu fiz sexo, e me dei conta, nunca havia feito amor. A boca de Julia em meu peito era quente, mas não era uma boca apaixonada. Minha personalidade fingida de um ser gélido me proibira de sentir falta de algo além do instinto. Algo mais próximo do psicológico.

Julia deitou em meio ombro, enquanto fumava seu cigarro, e estranhou quando neguei um no momento em que fui oferecido.

“A coisa deve ser séria mesmo. Para você se dar ao luxo de negar um L.A.”

“Julia, você sempre me perguntou sobre o meu passado. Sinto que eu devo lhe dizer, agora.”

“Sente? E porque?”

Respirei fundo. “Julia, eu vou morrer”

E tudo que ela fez ao ouvir, foi tragar seu cigarro até que as cinzas cairam sobre sue peito nu. Engraçado, sempre usei vírgulas nas minhas frases, e nunca pensei o quão é importante o uso de um ponto final.

“O que você tem? Aidis?”

Compreendi então o medo dela. “Claro que não. Eu lhe mostrei o exame, lembra?”

“Foi só uma pergunta, querido. O que é então?”

“Antes, gostaria de te contar tudo.”

****

O menino tinha 13 anos. Sua libido era irregular, para a sua idade. Pelo menos era isso que as pessoas acreditavam, ao seu redor. Tinha um interesse pelo sexo oposto muito maior do que seu interesse pela pintura, que erao que ocupava quase todo o seu tempo. Ela era muito mais velha. Ela tinha uns 25 anos, elegante e esbelta, e solteira. Sua beleza era radiante, suas curvas eram perfeitas e seus lábios eram delicados e vermelhos como uma pitanga madura. Seu andar era requintado, e seu jeito gentil foi o suficiente para que o menino se apaixonasse perdidamente por ela. Ela vivia há apenas algumas casas de distância, e vivia sozinha. Ninguém da vizinhança nunca soube nada do passado dela, e ela também nunca fez questão de contar para ninguém. Era sempre muito gentil com todos, mas seu emprego era misterioso, seu passado era misterioso, e todos sabemos como mulheres de vizinhança adoram falar mal de outras mulheres de vizinhança (exceto delas mesmas, é claro).

O menino foi de bicicleta até a varanda da mulher, por voita das onze da noite. Não havia nenhuma pessoa nas proximidades, e ele estava decidido a comer aquela mulher. Olhou cuidadosamente pelo portão, mas a única luz acesa do quarto apagou de repente. Ela dorme cedo, claro... Suspirou triste. Subiu em sua bicicleta quando viu, por uma brecha entre o muro uma mulher andando, pela saída dos fundos da casa. Ele então a seguiu, e viu que era ela. A mulher, saindo escondida, as onze da noite, em direção a uma rua que a conduzia para uma avenida movimentada. Cautelosamente, o menino a seguiu por aquele percurso escuro, que conduzia à uma rua sem iluminação. As casas iam diminuindo e logo ficaria claro a presença dele. Resolveu então baixar a velocidade, e ir devagar, afinal, ela não desconfiaria de uma pessoa andando de bicicleta. O menino perdeu a noção do tempo, e já estava muito, mas muito longe.

Lentamente, as luzes das casas foram dando lugar a uma estradinha mal feita, cercada de mato, mas a mulher continuou caminhando, com seu capuz, e foi quando parou perto do que parecia ser um ponto de ônibus abandonado. Misteriosamente, surgiu de trás da construção outra mulher, trajando pouca roupa, e quando o menino se deu conta, havia mulheres semi-nuas por toda a rua. Voltou seus olhos para a mulher, e viu que por debaixo do capuz havia uma prostituta. Seu coração gelou e parou a bicicleta naquele momento. O tesão subiu a sua cabeça de um modo rápido, sentiu seu membro enrijecer dentro de sua cueca, seu suor frio escorrendo na sua nuca, e foi nessa hora que a mulher o encarou, olho no olho. As duas riram, e ele pensou em simplesmente ir embora, mas ficou paralisado quando viu que a mulher vinha na sua direção.

“Isso não é hora de criança vir brincar.” Ela disse, maliciosamente, quando chegou perto. O menino pode ver, a cicatriz terrível em sua mão direita, que ela tentou inutilmente esconder. Ele ficou instigado, pois nunca havia notado antes.

“Eu não sou criança” Ele voltou para ela.

“Ah não? E quantos anos você tem?”

“Treze.” A mulher riu da forma orgulhosa com a qual o menino respondeu.

“Treze... já tem pentelho?”

“Eu... sim.”

Estúpidamente, o garoto mostrou seu pênis, ereto, e a mulher mordeu o lábio.

“Não pedi para ver garoto. Se quizer, custa...”

“Não tenho dinheiro”. Ele a interrompeu “Só estava te seguindo.”

“Você o quê?!” Ela mudou sua expressão. O menino sentiu-se bem quando percebeu que o controle havia mudado de lado.

“Eu te segui desde sua casa. Eu moro quase do lado. Eu sei quem você é.”

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“Agora eu acho que entendo” Disse Julia, séria. É lógico que eu fazia força para não chorar. Esse tipo de lembrança dói.

“Bem, deixe-me continuar. Onde foi que eu parei?

“Na barganha” Julia se endireitou, olhando com mais atenção. O frio na barriga ainda me estava suportável. Respirei fundo antes de continuar.

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A mulher olhou novamente para o ponto de ônibus, onde sua amiga aguardava rindo, esperando que a brincadeira terminasse logo. No interior dela, entretanto, ela sentia um medo cuja origem ela não compreendia, afinal, era só um menino. O que um menino poderia fazer? Contar tudo? Espalhar rumores? Instigar ainda mais as vizinhas? Ela não podia arriscar.

“Menino, o que você quer?”

“Quero te comer” Ele foi rápido, direto, já não tremia mais. A mulher engoliu em seco.

“Podemos ir para o mato. Você por acaso tem...”

“Eu quero gozar dentro de você”.

“Nunca.” Rápido demais. O menino tinha o controle agora.

“Voltarei e contarei tudo a todos. Destruirei sua vida.”

“É só eu me mudar daquele lugar.”

“Você pode sair dali. Mas seu nome... seu nome vai ser o mesmo onde quer que você esteja.” Ele sorriu. A mulher estremeceu de medo. Aquilo simplesmente não podia estar acontecendo.

“Tudo bem. Você vai ejacular dentro de mim. Vamos logo.”

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Júlia deixou escapar um gemido, horrorizada. O que eu podia fazer? Apenas ignorei, dando a ela um tempo para digerir tudo. Foi, de fato, uma chantagem ridícula, imatura, desumana, mas aconteceu, e nada mudaria isso.

“Continue, por favor” Julia replicou de repente, baixo.

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O menino penetrou na mulher de forma selvagem, e era seu primeiro contato de verdade com o sexo, pela primeira vez não acontecia em sua mente, pela primeira vez o combustível não era fúteis desejos que circulavam no interior da sua imaginação pervertida, dessa vez, era real. O prazer veio e durante seu curto tempo de duração fez o menino acreditar que poderia morrer, que sua vida valia nada mais do que um mero orgasmo. Quando abriu os olhos e viu a terra, o mato, as formigas e a ausência de luz, percebeu que ainda estava dentro da mulher, que o observava, séria.

“Você não teve orgasmo” Ele disse.

“Claro que não. Fingi todos os meus gemidos. Sempre faço isso.”

“Agora você vai engravidar?”

“Não vou deixar que isso aconteça, não se preocupe.”

“Saiba que você foi a minha primeira.”

“Eu sei. Eu percebi sua falta de experiencia. Seus modos desajeitados...”

“Quero voltar a te ver. Posso?”

“Menino... eu...”

“Por favor?” Ele sorriu. A mulher riu, rouca, sentindo que já não havia nada dentro dela. Levantou-se, nua, e vestiu suas roupas novamente.

Todos os dias, durante a tarde, o menino visitava a mulher em sua casa, e transavam. Amor ou não, o menino chegou num ponto em que não queria mais que ela se prostituisse.

“Você é só minha.”

“Eu não sou de ninguém, muleque. Eu dou para quem eu quero, e vivo disso. Não tenho orgulho, mas orgulho não mata fome, no fim das contas.”

Não demorou muito para que a tragédia acontecesse. O menino entrou em sua casa no momento em que sua mãe era estuprada por um, e sua irmã, de doze anos, por outro. Eles gemiam alto, e a violentavam, mas o menino ficou parado, sem saber o que fazer. Seu pai estava amarrado, gritando palavras incompreensíveis de longe, pois o pano em sua boca não o permitia de fato, falar. O menino deu um passo para trás, quando um outro homem o agarrou pelo cabelo, e o jogou violentamente perto do pai.

“Mate-o logo.” Gritou um deles. O menino respirou, o medo falando mais alto do que tudo, o desespero fazendo tudo se tornando negro, uma grande imensidão negra, e viu seu pai cair morto diante de seu colo. Seus olhos de vidro o fitavam carinhosamente enquanto o sangue escorria do buraco da bala, e foi a última coisa que ele viu. A escuridão tornou-se o tudo, e o tudo, tornou-se um campo negro sem fim.

Quando o menino acordou, não fazia idéia de onde estava. Apenas ouvia o silêncio, gritando em seus ouvidos, enquanto sua alma suplicava pela morte. Ouviu então vozes, e percebeu que estava seguro.

Sua cegueira era temporária, mas nenhum médico poderia dizer o tempo exato. O menino seria entregue à adoção, uma vez que sua família deixara de existir. Foi quando uma mulher apareceu, e o adotou.

Agora, o menino era filho da mulher da cicatriz. Parecia doentio, mas isso só aumentava o prazer durante o sexo. Quando ele completou dezesseis anos, a mulher desapareceu, mas deixo com ele o fruto. A criança, gerada no dia em que perdeu sua virgindade.

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“Meu Deus.” Julia estava apavorada. Olhava de pé para mim, com lágrimas nos olhos, corpo trêmulo e eu via que sua mente oscilava entre acreditar ou não.

“Julia, fique calma” Tentei acalmá-la.

“Você...” Ela começou “Você é o menino?”

“Não.” Respondi. “Eu sou a criança.”



continua...

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