quarta-feira, 6 de abril de 2011

MÃO DIREITA |||| parte 05 *****

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Confesso que também fiquei chocado quando meu pai me contou pela primeira vez como foi que ele havia conhecido minha mãe. Fiz inúmeras perguntas, sempre, pois ele nunca casou-se novamente com ninguém. Viveu com sua tia, que o ajudou a me criar, até que um dia ele faleceu, sem voltar a enxergar. Assim como ele, interessei-me pela pintura, interessei-me pela arte... de certa forma, me fazia o lembrar. Me sentia humano dessa forma. Assim como ele, nunca me casei.

Agora, todo o fracasso que foi minha vida faria sentido. Eu morreria, e de forma natural. Não fui eu quem cometera suicídio, fora o acaso quem me matara. E isso era delicioso. Decidi então ir visitar a velha, aquela que me fornecera tamanho presente. Levei comigo o envelope, e dentro, a foto de minha mãe, sua cicatriz terrível em sua mão direita, seus olhos profundos e azuis. Talvez a velha já estivesse morta. Mas valia a pena arriscar.

Lembrava totalmente do endereço, e o táxi não demorou muito por conta o trânsito tranquilo. Subi as escadas e toquei a campainha. Para minha surpresa, uma moça jovem atendeu.

“Sim?”

“Olá... vim visitar uma venha senhora que vive aqui. Ela se encontra?”

“Ah... sinto muito, mas ela faleceu recentemente.”

Silêncio, pela enésima vez. Cortei-o o mais rápido que pude.

“É uma pena.”

“O senhor era muito próximo dela?”

“Digamos que... ela me deu um presente fantástico, e eu queria muito agradecer.”

“Sim, entendo. Você deseja entrar? Talvez... ver o quarto dela? Está intacto, desde o dia de seu falecimento.”

“Sim, eu adoraria.”

A jovem moça me conduziu pela casa, até o aposento da velha. Era um quarto enorme, completamente cheio de plantas ornamentais, um aquário gigante e triufante na parede, (sem nenhum peixe) e um piano velho no outro canto. Em cima do piano estavam diversas fotos, e um quadro enorme pendurado na parede. A moça se retirou, me deixando a sós no local.

Eu podia sentir o cheiro da vida que ali um dia existiu. Cada passo, cada respiração, cada pulsação da velha estavam impregnados naqueles móveis, naquela cama colossal, naquele vitral em sua janela. Observei cuidadosamente o quadro, e o achei fabuloso. Tratava-se de uma mulher jovem, de costas, mas as sombras em suas costas revelavam um homem, como se a espreitasse se trocar. Lindíssimo, sutil, fiquei alguns minutos o admirando, e baixei para os quadros. Várias pessoas, mas não vi nenhuma foto dela. Sentei num sofá que havia ali do lado enquanto pegava um album que havia sido deixado em cima do piano. Estava empoeirado, mas era lógico, ninguém dava a mínima para as lembranças da velha, afinal, era só uma velha, como ela mesmo disse, sem família. Abri o livro e o que eu vi fez meu corpo reagir como um cano de descarga. Foi pior que maconha, muito pior que cocaína, foi pior que heroína. Foi uma overdose do passado. A foto que eu via no album era idêntica a foto que eu tinha no meu bolso. A velha, aquela velha que me trouxera a morte, não, não poderia. Olhei para os lados, exasperado. Passei a mão na cabeça e não sei explicar, uma sensação de “acorda” tomou conta, mas não era um sonho, eu sabia que não era, a atmosfera era diferente. Esbocei um movimento de saída do quarto, esbocei um movimento de choro, respirei ofegante e conferi as fotos. Eram iguais. A velha era ela. A velha era a mulher da cicatriz. A velha era a minha mãe.

Por fim, eu gargalhei. Tão alto e tão medonho que a jovem moça entrou no quarto correndo, mas o êxtase percorreu meu corpo de forma tão intensa que desabei a chorar e a gritar. Ela tentou me fazer reagir mas eu nem a via mais. Minha mente estava no quadro, o quadro acima do piano. A assinatura de meu pai, bem abaixo da moldura, que eu não havia reconhecido. Um quadro, feito por um cego. Uma velha portadora de geostigma que desapareceu. Por que? Que razões teria uma mãe de abandonar seu próprio filho? Que razões teria sua mãe de se esconder do mundo? Não compreendia. Não entendia, queria evitar todas as respostas ruins. A mãe que eu sempre desejei estava ali. A prostituta imunda que me gerou em meio a uma chantagem deu-me a morte como prêmio de consolação. Eu engoli seu sangue. Eu engoli o sangue de minha mãe.

Hoje, estou internado. Já faz quatro meses desde o dia em que fui na casa da velha com geostigma, da prostituta, da mãe ausente, da mulher, enfim, são tantos títulos, mas a essência... ah, eu sinto que sempre foi a mesma. Hoje eu vejo as coisas com clareza. Vou morrer, a sinto perto... Não tem ninguém aqui para segurar a minha mão, exceto uma enfermeira, quando vem checar alguma coisa. Não antendo os telefonemas de Julia, acho justo que ela não faça a menor idéia do que aconteceu comigo. Quero morrer em paz. Reecontrarei minha mãe no inferno? Ah... inferno é onde estamos agora, meu amigo. Nem quero pensar como é o lugar para onde vamos depois da morte.



FIM

2 comentários:

  1. Fantástico! Merece ser publicado! Abraços!

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  2. *.*. Na terceira e quarta parte eu me arrepiei da cabeça aos pés. E nesse final também. Vou procurar um adjetivo tão inusitado quanto esse conto: genuíno! Parabéns Julien. =D

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