sábado, 2 de abril de 2011

RABISCOS [parte 5| - Interação

A estátua do Javali ainda permanecia intacta. Sua beleza me inspirava de uma forma tênue, me aproximei, tentando conter os arrepios nas minhas costas, mas o amor era tão grande que o envolvi nos meus braços fracos e ensangüentados, mas não me importei, continuei ali, defendendo meu precioso das cinzas que voavam por cima. Ele me contara tudo. Há muito tempo atrás.

Quando eu era criança, reparei na existência da estatueta, e ela me fez delirar. Suas formas sutis, perfeitamente esculpida, totalmente trabalhada nos mínimos detalhes com a destreza de um profissional de mil anos de experiência. Sua coloração marrom-escura atenuava o sombreamento que se dava quando nela batia a luz do sol, e as sombras projetadas na sua superfície formavam o mais lindo contorno, e ao mesmo tempo, o mais medonho. O Javali era encantador. Ninguém gostava de mim. Nem meus pais, nem meus irmãos. Por isso os matei, creio. Ou não. Fora algo totalmente fora de mim. Hoje enxergo que agi com imprudência. Mas já não importa mais.
Lembro-me bem, daquela noite, em que o Javali falou comigo pela primeira vez. Chorava silenciosamente, por conta de uma briga qualquer, quando percebi que ele olhava para mim.

— Deve ser mais fácil para você, que é de madeira. Nada te afeta. Nada de machuca. Você fica aí, o dia todo, imponente, apenas observando enquanto as pessoas morrem.
— Mas é claro que um dia eu também vou morrer — Respondeu o Javali, fazendo-me tombar de susto. Levei minhas mãos à boca, tentando abafar um grito de pavor misturado com um ecstasy de orgasmo.
— Não sabia que você podia falar.
— E nem eu sabia que você podia me entender.
— Quem é você?
— Eu sou um Javali.
— Apenas isso?
— Apenas...? — ele riu — Não menospreze minha existência só porque ela é incompreensível para você. Eu sou muito mais do que o conceito que você criou, assim como você é muito mais do que você acha de si próprio.
— E por que você não foge daí?
— E por que fugiria eu? Aqui é maravilhoso.
— Eu... — Eu não sabia o que dizer — Eu vou me deitar.
— Espere, Dimitri.
Eu nunca havia dito a ele meu nome. Mas era óbvio que ele sabia.
— Você tem muito potencial, menino. — Ele começou — Você tem nas veias a frieza necessária para o triunfo. Você tem a mentalidade perfeita para a mais alta compreensão. Você quer ser livre? Você precisa ser livre. Sua família está submersa em um oceano de podridão, e está há séculos. Você compreende? Ninguém te ama, só porque simbolicamente você não tem o mesmo sangue que eles nas veias. Mas eu pergunto, isso é importante? Onde entra o sentimento de que eles tanto falam?
— São hipócritas.
— Exatamente, Dimitri, absurdamente hipócritas. Mas eu tenho um plano. Um plano perfeito, para te ajudar. Mas você tem que se tornar meu escravo. Eu tenho que me alimentar de você.
— E como você faria isso?
— Há um intermediário. Uma pessoa além de você nessa casa sabe da minha existência. Eu posso encarnar nessa pessoa. Você nunca saberá. Dimitri, quero que você vá na cozinha, e encontre uma forma de vendar seus olhos. Vou aparecer lá, e tocá-lo, e assim, você saberá da minha existência.
— Tudo bem.

Fui caminhando, pela quietude da madrugada, até a cozinha, onde amarrei minha vista com um pano qualquer. Não via nada, contudo consegui ouvir passos vindo na minha direção. Senti meu corpo gelar, até que uma mão quente tocou meu ombro.
— Fique tranquilo — era a voz do Javali — Vai ser uma sintonia com o divino.

E fiz sexo com ele. Eu tinha apenas sete anos, não sei quantos anos o Javali tinha, mas fizemos sexo e eu tive meu primeiro orgasmo. E assim foi, todos os dias, durante todos esses anos, e em troca do meu corpo, eu tinha todas as respostas que eu sempre quis.
Fui crescendo e me apaixonei pelo Javali. Eu o amava. Ele era o único que me queria, que me desejava, e com o tempo percebi que ele também era o único que eu desejava. Até que um dia, quando meu raciocíno estava treinado, eu encontrei nas entrelinhas de tudo que ele havia me dito tudo o que eu precisava fazer.
— Vou te orgulhar, meu amor querido, eu finalmente entendi meu propósito.
— O quê vai fazer?
— Vou supreendê-lo. Não quero estragar tudo. A festa está se aproximando, vai correr tudo conforme o planejado.

E assim foi, quando me tornei obcecado por Susane, e decidi que deveria ser ela. O ritual de libertação, a purificação da minha alma, a remoção total da podridão da minha família. Deveria ser a morte. Acabei levando Natália junto, mas de alguma forma, o Javali agiu e não precisei eu mesmo causar o incêndio no casarão. Todos fugiram. Não sei onde está minha tia, ou Miguel, que não era o intermediário, no fim das contas.

Mas naquele atual momento, olhando para o Javali, percebia que ele não me respondia. Estava quieto, silencioso. E entendi bem. Ele havia partido. Só faltava a mim.
E é por isso que escrevo essas páginas, esses meus rabiscos que provavelmente só eu entendo, a história da minha libertação. Meus pulsos já sangram intensamente, mas enquanto tiver forças para escrever, escreverei. Enquanto a vida ainda estiver pulsando em mim, eu irei viver. E curtir cada segundo da dor física da vida sendo expelida, e o prazer espiritual da minha redenção divina. Só espero encontrar com o Jav - -

...

— Continue!
— Acabou. — Disse Penélope — Essa foi a última página.
— Que caso bizarro.
— Muito bizarro, e curioso. Ainda não compreendo muito bem.
— Então, era o Miguel, no fim das contas?
— Era. Se aproveitou da esquizofrenia do sobrinho adotivo para estuprá-lo, e assim o fez, até que ele completou quinze anos. A partir daí, perdeu o interesse, mas Dimitri já estava completamente maluco.
— Como alguém vive tanto tempo bolando algo tão frio e não demonstra nada?
— Ainda temos muitas investigações a fazer. Demorei muito tempo para traduzir esses rabiscos... sugiro agora que tentemos localizar a tia.
— Vamos Penélope, já está tarde. Você já se doou demais por causa desse caso.

***



FIM

2 comentários:

  1. *.*. Tive um orgasmo com esse final. xD. Genial Julien. Amei os títulos, a construção psicológica dos personagens(principalmente o Dimitri) e a maneira como você desenrolou a história. Já pensou em escrever um romance?

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  2. Já, mas não consigo, eu sempre acabo não terminando... tenho um milhao de textos aqui que nunca terminei D:

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