terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Meu Pai é a Minha Mãe (parte I)

O MEU PAI É A MINHA MÃE

Inspirado em fatos levemente reais

Existem todos os tipos de gostos no mundo. Quando eu digo todos os tipos, eu quero dizer, todos os tipos mesmo. Em todos os níveis, em todos os departamentos.

Essas modalidades não tem explicação racional. Alguns psicólogos tentam desesperadamente encontrar padrões na mente humana que explique, por exemplo, por que existem pessoas que só conseguem dormir com os pés para fora do edredom, mesmo que esteja fazendo um frio intenso no quarto.

Não, não, isso não é um texto dissertativo-argumentativo, nem nada didático... isso são apenas os meus devaneios, as idéias idiotas e malucas que compõe o meu cérebro deformado de adolescente.

A história que eu vou contar não aconteceu comigo, aconteceu com um amigo de um amigo meu, e é interessante justamente porque aborda de uma forma bem específica os limites doentios do cérebro humano.

A história se passa em Campos dos Goytacazes, uma cidade no interior do Rio de Janeiro, uma cidade cuja sua maioria troca a sílaba do “l” por “r”, não consegue compreender a diferença entre a película de novela e película de cinema, não tem o hábito da leitura (a não ser que seja aquelas revistinhas “Minha Novela” em que TUDO o que acontecerá é revelado, e por algum motivo misterioso, todo mundo compra), entre outras características peculiares. Na cidade, existe uma ruazinha no centro chamada 21 de Abril, uma rua pequena, cercada de prédios velhos caindo aos pedaços, e personagens sociais bem específicos.

Xavier passava por aquela rua numa noite quente. Por mais que o céu estivesse nublado, o mormaço quente se recusava a sair da atmosfera e como conseqüência disso ocorriam o vencimento de centenas de chapinhas e ressecamento de peles alheias; A medida em que se embrenhava na escuridão sutil das construções pós-coloniais abandonadas, ele foi avistando ao longe os vultos em que encontraria o seu propósito.

A primeira era alta, tinha os cabelos longos, loiros, até a cintura. Usava um vestido curto, até um palmo abaixo da virilha, e um tomara-que-caia com um decote exagerado, exibindo dois pares de seios do tamanho de bolas de futebol de brinde de festa junina de escolas particulares. Os lábios de sua boca pareciam lábios de uma vagina em pleno ato sexual, e sua maquiagem... bom, vamos só comentar que era muito bem trabalhada.

— Oi, Katyleiny. — Xavier parecia seco. Katyleiny virou-se abruptamente, acompanhando com os olhos o delay de seus cabelos gigantes contornarem seu pescoço.

— Nossa, que susto, gata! Achei que fosse um desses faveladinhos virgens que realmente acreditam nos coleguinhas quando eles dizem que isso aqui é frenquentado por prostitutas mulheres.

A risada de Katyleiny irritava Xavier. Na verdade, a risada de todos eles... elas... ele/as irritavam Xavier. Assim que as outras travestis perceberam que tratava-se de Xavier, um grupo de cinco cercou-o em meio às suas risadas histéricas e jogadas de cabelo desnecessárias.

— Mas oram vejam, está uma delicinha hoje, hein Xaxá! — Gritou uma, em meio aos berros agudos das outras.

— Já ta com pentelho, Xaxá? Deixa a titia ver aqui... — E foi nessa explosão de gritaria, que uma voz ecoou mais alto do que todas.

— PAREM COM ISSO, PORRA!

Todas elas, ao mesmo tempo, viraram suas cabeças e observaram com o canto do olhos seus cabelos fazendo a curva até parar sobre seus ombros. Xavier teve náuseas, mas ficou contente por ele ter chegado logo.

— Tome, pai. Trouxe sua janta. — Xavier levou até a travesti que gritara uma marmita. As outras, em meio à sussurrinhos obscenos, foram se distanciando, enquanto Xavier aproximou-se, com toda a expressão de desgosto que um adolescente cujo pai é travesti e se prostitui num beco escuro de uma cidade de interior é capaz de sentir.

— Obrigado, filhote. — Aquela era Djeanny, com cabelos curtos, azuis, e vestido tão vulgar como todos os outros, estou com um pouco de preguiça de descrever — Sua aula acabou cedo, hoje.

— É, espero também que seu emprego também acabe cedo.

— Não sei ainda, Xá, depende muito...

— Quantos?

— Quantos o quê?

— Quantos clientes, mãe. Pai, pai, desculpe.

— Oito até agora.

Puta que paril, pensou Xavier, isso é humanamente possível?

— Acho que já ganhou o suficiente, né...

— Estou esperando um cara que sempre vem nesse dia... ele é ótimo, me paga bem e me leva num motel caro. — Riu, e tragou um pouco do baseado — Quer?

— Não pai, eu não uso drogas.

— Claro que usa. — E deu outro trago — Eu sei que você é viciadíssimo em Clonazepam.

Enfim, agora eu vou indo antes que suas colegas me estuprem.

— Fique calmo, elas apenas estão com fogo no cú porque não arrumaram bofe ainda. — E riu. Xavier suspirou fundo, deu as costas e saiu andando.

Mas...

Por um milésimo de segundo, desejou ter uma peruca só para jogá-la poderosamente no ombro na hora de sair, afinal, era assim que se ganhava respeito naquele meio.

E antes que lhe venha na mente questionamentos sobre a sexualidade de Xavier, eu vou logo adiantando: O menino era hétero. Ah, se era. Isso não significa necessariamente que ele transava de fato. Passava horas da noite vendo vídeos de mulheres soltando fogo por suas cavidades excretoras, isso de alguma forma o excitava muito. Existia, sim, como na vida de qualquer jovem de dezoito anos, a mulher que ele sempre imaginava junto. Mas Melissa simplesmente o via como melhor amigo gay.

— Eu não sou gay, Melissa. — Xavier dizia.

— Claro que é, Xá, só você que não sabe disso ainda.

— Hey Xá, quer um chá? — Ninguém riu. — Nossa, eu sou simplesmente genial.

Gui veio trotando até Melissa e Xavier, sentados no lugar de sempre no colégio. Rezava a lenda que, se Gui se jogasse exatamente no centro do pátio, as duas pontas da escola iriam se colidir no ar.

— Você é gordo. — Xavier retrucou.

— E não dá no mesmo? Não tenho beleza física, então Deus compensou na minha inteligência.

— Deus não existe, Gui.

— Claro que existe, Xavier pseudo-ateu!

— Se existisse meu pai não seria um traveco.

— Hmmm. — Gui sentou-se, fazendo todos no chão saltarem alguns milímetros da terra — You got a point. Enfim. Mel, o que temos para hoje?

— Não sei. Poderíamos ir para a sua casa assistir os novos episódios de “Terra Nova”... Ou poderíamos fazer uma competição de Charles Dickens e ver quem termina Oliver Twist primeiro.

— Nossa, tentador. Você tem um exemplar de Oliver Twist em casa, Café? Xá, quer dizer, Xá...

— Há, há, há. Você me mata de rir.

Xavier não riu.

— Tem ou não tem o livro, Coxuxo? — Xavier achava a coleção de movimentos sutis da boca de Melissa quando ela pronunciava aquele apelido completamente ridículo e homossexual a coisa mais linda do universo.

— Não, Mel, acho que esse eu emprestei pra alguém... Sei lá.

— Cara. — Gui descruzou as pernas e trocou de posição. Todos ficaram alertas, mas nada aconteceu — Eu sei que você sempre foi apático e chato de propósito só para se sentir diferente e se auto-afirmar superior, mas... hoje você está ligeiramente pior.

— È o meu pai. Ele pediu que eu fosse o acompanhante dele na Parada do Orgulho GLBT da cidade.

No fuckin’ way! — Gui exclamou, mordendo um sanduíche de atum que nenhum dos dois tinha a menor idéia de onde ele havia tirado. *

— O pior vem agora: A parada vai ser em Guarús.

Pausa dramática agora. Para vocês entenderem o impacto que existe quando alguém fala sobre Guarús, ou melhor, quando alguém diz que vai fazer algo em Guarús, preciso deixar claro alguns fatores importantes:

A cidade de Campos dos Goytacazes era cortada ao meio por um rio, o Rio Paraíba do Sul (Não existia nenhum Rio Paraíba do Norte, mas quem se importa? Acho que o nome simplesmente soou legal na época). Por questões físicas e biológicas, as pessoas que tinham tendências genéticas a serem mais ricas resolveram ficar do lado de cá, enquanto a ralé ficou do lado de lá. Conclusão: 300 anos depois, Guarús era apenas um local de gente absurdamente pobre e sem cultura. (desde já deixo claro que isso é apenas a opinião pessoal de Xavier, e como ele é fictício, a opinião também, logo, não estou ofendendo ninguém).

Para um garoto cuja vida social online era mais significativa do que a vida social na vida real, acompanhar o pai – que era travesti – em uma parada para defender os direitos dos homossexuais – onde isso era a única coisa que eles não faziam – era simplesmente um absurdo, podendo até tirar todo o ânimo dele de reler, apenas por distração, os comentários em áudio transcritos do terceiro filme da franquia Senhor dos Anéis de Peter Jackson.

Xavier foi para casa e ligou seu computador; A sala de chat que ele participava chamava-se Queengdom, ou QD, simplesmente porque isso era o mais longe que uma piada machista de um nerd conseguia chegar. Seu nickname era Fantástica Criatura Mágica da Floresta, pois sua conta havia sido criada quando ele tinha apenas treze anos.

...

É claro que ele se odiava por isso. Os outros membros, devido ao nick grande demais, o chamavam de ALF, por conta do seriado Alf – O Eteimoso (tradução bizarra do SBT) em um episódio em que ele mente para uns guardas-florestais dizendo ser uma criatura da floresta.

>>

AbelhaRainha: Saka soh quem entrou rs

Gui: chegou em casa jah, alf? Foi bem rápido dessa vez

Queen_Mel acabou de entrar.

Alf: Não enxe por favor. Sinto-me indisposto. Não agüento mais conversar assuntos desnecessários com vocês, pessoas cujos rostos eu desconheço.

Brusa: ????????????/

Queen_Mel: Alf, já falei que o Aurélio NÃO É UM LIVRO MAINSTREAM.

Alf: Desculpe, não fui eu. Foi o meu Eu Lírico.

Gui: Meu Deus, Alf. Mestre!!!!!!!!!!!

Brusa: I don’t wanna live in this planet anymore.

<<

***

Xavier acordou babando em cima do teclado do seu computador. O chat rolava solto sobre algum assunto relacionado com política esquerdista na Suécia, e ele desligou o botão, mergulhando seu quarto numa total escuridão. Pegou debaixo do seu travesseiro uma foto da sua mãe, Fátima, e ficou admirando-a na penumbra. Não tinha ninguém olhando, então ele podia chorar em paz.

Não é que ele não amava seu pai, apesar deste ser um travesti; Ele apenas sentia muita falta da mãe. Ela havia falecido tinha mais ou menos uns nove anos, eu não lembro de cabeça, por conta de uma pneumonia. Seu pai, na época já era travesti, ficou o tempo todo ao lado dela, mas quando a perdeu, chorou lágrimas de sangue. Eles sempre foram amigos, e haviam decidido ter um filho juntos quando ainda eram novos, mesmo que Djeanny, ou Diego, sempre soubera que iria ser mulher.

Xavier fungou, pegou uma cartela de clonazepam e engoliu.

Só foi acordar no dia seguinte.

Desceu, ainda meio tonto, sem saber se o sonho em que ele era uma peça de Tetris desmoronando em cima de várias outras era real ou não, quando viu seu pai usando apenas roupa íntima feminina na cozinha, preparando um café da manhã, e teve um choque de realidade.

— É hoje! — Djeanny exclamou, ao ver o filho — Nossa, estou completamente entusiasmada! Já pensou no que vai usar, filhote... que cara é essa?

— Pai, eu não quero ir. — Xavier disse, sentando-se na mesa da cozinha — Sério, eu não iria suportar. Por favor. Liga pra um desses homens ricos aí que você pega e me deixa ficar aqui.

— Xaxá... — Djeanny corou — Eu achei que você fosse curtir. Eu... eu só queria dividir esse momento com você.

— Não se faça de dramático, pai.

— Você que ta fazendo a linha dramática, Xaxá. E a linha egoísta. — Djeanny sacudiu sua cabeça careca, sem peruca — Mas tudo bem. Fica em casa. Eu só achei que meu filho fosse mente aberta o suficiente para se divertir comigo. Ta achando o quê? Que eu ia te largar lá pro primeiro homem que aparecesse? Fico triste em saber que você, Xavier, não me conhece mesmo.

Djeanny saiu da cozinha, indo em direção à porta da sala, quando Xavier suspirou e gritou:

— Ta, pai, eu vou!

Djeanny parou abruptamente, deu uma meia volta e gritou histericamente.

— Ótimo! — Xavier ficou chocado — Agora que já está tudo resolvido, preciso ir na casa de Jussara Marya pegar meu perucão roxo. Custou uma fortuna! Quando der duas horas estarei em casa, e a gente vai direto pra Guarús, combinado?

— Ta. Só vou na casa da Melissa como Gui levar uns dvds e já to voltando.

— Ta. Tchauzinho! — Disse, e sumiu flutuando pelas plantas da varanda. Xavier levou as mãos à cabeça, desesperado.

É por isso que eu não acredito em você, Deus.

Mas saiba que eu existo, e resido aqui no teu interior, e cuido de você e falo por você, quando me é dado a oportunidade...

Você não é Deus. Você é só o meu Eu Lírico.

Dá no mesmo, creio eu... Jovem Xavier. Seu pai é um ser humano como nós. Tudo que ele deseja é dividir com você um momento que ele considera importante para ele, exatamente quando você fazia sua mãe o acompanhar nos Eventos de Manga que aconteciam naquele lugar fétido chamando... Como era mesmo o nome?

Ellaballë?

Exato. Meu Senhor, esse nome é absurdamente inadequado... de todo modo, não irá lhe custar nada acompanhar o seu pai.

É. Acho que não. Vou tentar convencer a Melissa e ME acompanhar. Quem sabe lá eu não consigo convencê-la de que não sou gay e que tudo que eu mais quero é chupar a bocetinha dela que deve ser simplesmente maravilhosa e...

— Continue, Xavier. Estou achando isso tudo realmente intrigante.

Xavier gritou, e com seu grito veio um susto, e com um susto, um tombo, e com o tombo, a risada ofegante de Gui, debruçado na bancada da cozinha americana.

— Não sabia que você tinha a palavra “bocetinha” no vocabulário, Xavier. Ainda mais a da Melissa.

— CALA. A. BOCA.

— Ta, ta! Eu finjo que não escutei nada. — Gui riu, maliciosamente, e Xavier percebeu que ele o chantagiaria com isso até o final de sua vida — Vamos logo, a Mel ta esperando.

— Eu... — Xavier estava ofegante — Preciso de um banho.

— De uma punheta você quer dizer, né?

— GORDO DE MERDA, fala mais alguma coisa que eu te faço emagrecer com um soco!

Os olhos de Gui brilharam.

— Você não seria assim tão bom comigo.

Xavier esbofeteou a própria testa.

— Enfim, Gui. Volto já.

Xavier terminou seu banho, e logo depois ele e Gui caminharam até a casa de Melissa. No caminho, foram conversando sobre algum assunto genérico qualquer, até que foram surpreendidos por um grupo de rapazes musculosos, semi-nus com bonezinhos e bermudas caras.

— Olha lá, Miguel! Os filho do traveco e o namorado gordo!

E todos riram. Xavier e Gui pararam, pegos de surpresa.

— Eaê, seu gay! — Berrou Miguel, se achando o máximo, enquanto os outros gargalhavam com ele.

— Olha, Miguel, eu adoraria brincar disso com você, mas eu realmente estou com pressa...

— Cala a boca, seu gay! Ta com medinho, é? — E mais uma vez, gargalharam. Xavier e Gui os ignoraram e começaram a passar por eles, sem dar atenção, até que um disse algo sobre Djeanny.

— Vou lá comer a boceta da sua mãe.. quer dizer,do seu pai! — Os amigos de Miguel se comportavam de um modo ainda mais retardado do que ele, se é que isso era possível.

— Olha só. — Xavier parou de repente e os encarou — Eu realmente não tenho tempo pra entrar nesse jogo com você... se realmente tentar me ofender com esses insultos genéricos sobre meu pai for o melhor que você consegue fazer, então, sinto muito, prefiro deixa-lo falando sozinho.

Miguel ergueu uma sobrancelha.

— Para de falar... coisas. Seu... seu... — Xavier viu o menino esforçando o cérebro para pensar numa ofensa Era como se ele pudesse enxergar uma ‘barrinha de loading’ por cima de sua cabeça. Depois de alguns segundos, ele disse, por fim:

GAY!

Todos gargalharam.

Meu Deus, pensou Xavier, eu sou MUITO superior.

E os ignorando pela segunda vez, entrou na esquina da rua onde Melissa morava. Sua casa era uma logo do início, e como a família da garota os conhecia, entraram sem bater.

— O quê?! — Melissa riu — Como assim, Coxuxo? Eu não posso te acompanhar, eu... eu posso ser vista!

— E daí? — Xavier insistiu — Você não é a primeira que diz para ignorarmos as opiniões dos outros?

— Mas é diferente... se alguém da minha família souber que eu fui nessa parada, podem achar que eu sou lésbica...

— Você não é a primeira que diz para ignorarmos as opiniões dos outros? Você não é a primeira que diz para ignorarmos as opiniões dos outros? — Xavier riu. Melissa deu um tapa de leve no seu peito.

— Ta bem, gravador... Eu vou com você.

Xavier parou de rir na HORA.

— O quê? — Ele perguntou.

— Eu vou com você — Ela respondeu.

— Como é? — Ele perguntou... de novo.

— Ta surdo? — Ela respondeu com uma pergunta.

— Você vai mesmo comigo? — Ele respondeu ignorando a pergunta dela.

— Claro que sim, Coxuxo...tudo pelos amigos, né... — Ela disse, por fim, enquanto a pergunta “ta surdo” afundava no esquecimento mútuo. Gui pigarreou.

— Obrigado por me convidarem — ele disse — Mas não, tenho medo de homossexuais e homens que se vestem de mulher.

— Eu sei. — Xavier disse — Tem medo de confundir com uma mulher de verdade e descobrir tarde demais.

***

Desceram do ônibus de Guarús, Melissa e Xavier, ainda atônitos. A rua principal estava completamente lotada; Haviam homens para todos os lados, de todos os biótipos e roupas possíveis. Homens absurdamente musculosos, de mãos dadas com outros homens absurdamente musculosos, mas todos eles absurdamente afeminados. Par ao outro lado, um grupo de gays da terceira idade levantando umas plaquinhas escrito alguma coisa que Xavier tinha certeza que jogariam no chão e correriam para debaixo do bandeirão arco-íris na primeira oportunidade que tivessem.

E lá estava Djeanny, com uma roupa absurda vermelha, e um perucão roxo a la Maria Mercedes até as nádegas.

— Filhote! Aqui!! — Ela gritou — Mas gentsh, vejo que você trouxe aquela sua amiguinha do colégio! Tudo bem, menina?

— Tudo bem, senhor.. senhora, hmm, não sei o seu nome...

— Djeanny. Djeanny Márcia, muitíssimo prazer... — Elas se cumprimentaram.

Xavier quis morrer.

— Pai, essa é a melhor peruca que eu já te vi usando.

As colegas próximas a Djeanny, a própria Djeanny e Melissa levaram um susto. Em seguida, o susto no rosto do foi substituído por um largo sorriso.

— Obrigado, meu filho. Agora vem, vamos desfilar, quero te apresentar umas amigas! Vem também, menina, fica perto porque isso aqui ta um perigo hoje! — E riu daquela forma que Xavier tanto detestava.

E foi quando tudo aconteceu. Todo o motivo pelo qual eu estou contando essa história, todo o motivo pelo qual essa história é interessante, todo o motivo pelo qual o Xavier se tornou a pessoa que ele é hoje.

Uma travesti qualquer, chamada de Bonita, passou correndo por Djeanny e arrancou sua peruca com as mãos. Djeanny gritou e tentou agarra-la, mas a peruca desapareceu por entre as outras travestis; Dejanny parou no meio do povo e urrou de óido.

— ESTOU DESCARACTERIZADAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!! — Trovões e cavalos relinchando pontuaram sua exclamação. Xavier tentou observar com o olhar rápido para onde foi a Travesti, mas a perdeu de vista. Melissa ficou sem entender, e Djeanny começou a chorar quando algumas amigas chegaram.

— Espera, amiga, espera... calma... vamos, vou te emprestar uma chanel que eu tenho no carro...

— Não quero nada. — Retrucou Djeanny — Aquelas falsas ridículas, invejosas! Eu vou acabar com elas. Eu vou matar todas elas! Onde está a gerente?

— Ela não veio... Djeanny, não faça nenhuma besteira, você sabe que você pode...

— Não se preocupe, Grizellya. Eu já sei exatamente o que eu vou fazer. Vem, Xaxá. Vamos pra casa. Isso aqui já deu.

Agora pensem comigo: Uma travesti, cujo visual inteiro depende de cada parte, quando fica sem peruca, perde a identidade; Por conseqüência, soa como um insulto fazer isso num evento tão importante para elas. A parada gay para as travas é como as missas de domingo para as mulheres negras do Sul dos Estados Unidos: O local ideal para CAUSAR e APARECER.

A travesti que roubara Djeanny, Bonita, bebia uma dose de vodka num beco qualquer enquanto gargalhava algo parecido com a risada da Rainha Má da Branca de Neve da Disney quando PENSA que a Branca de Neve estava morta.

— Aquela vadia agora NUNCA MAIS vai se meter no meu caminho... — Bonita disse para as outras, rindo.

— E segunda, o que você acha que ela vai fazer quando te encontrar no ponto?

— Nada, se ela for esperta. Se fizer qualquer coisa... eu mato aquela desgraçada. Roubadora de homens. Só porque é a única que não tem silicone industrial. Metida dos infernos!

***

— Pai, não fica assim... é só uma peruca... você pode comprar outra...

— Você não entende, Xaxá... — Djeanny chorava sutilmente, lágrimas negras por conta de sua maquiagem que borrava — Era a peruca de Miss Marple...

Miss Marple? — Gui perguntou, levemente interessado — É alguma homenagem à Agatha Cristie?

Ninguém respondeu.

— Essa peruca tinha um valor sentimental enorme para ela... e ela passou para mim... você tem idéia disso? Foi com essa peruca que Miss Marple foi miss Gay de Campos pela segunda vez!

E sem mais, Djeanny se entregou aos próprios lamentos e desabou-se a chorar. Apoiou na cadeira e começou a soluçar, e então, sua voz feminina se desfez. Retirou a maquiagem do rosto com as mãos, revelando suas rugas de homem de meia idade; Retirou as unhas postiças com os dentes, e aos poucos, Melissa, Gui e Xavier não conseguiam mais parar de olhar, e de se sentirem mal.

— Como eu poderia cobrar isso de você, Xavier... você nunca vai entender. É evidente que você me despreza... que filho amaria um pai que se veste de mulher? Que se prostitui pra ganhar a vida? Os chefes de família trabalham... ganham dinheiro suficiente para dar aos filhos uma vida decente sem precisar se humilhar, se vender... então eu pergunto, onde está o amor? Não há amor. Você não foi gerado por fruto do amor de um casal, você foi uma brincadeira de um gay babaca e uma menina tola. Ah, eu amei sua mãe...mas nunca como mulher. Éramos como irmãos... Há. Chega a ser engraçado, ao ver por esse ângulo. Tive um filho com a minha irmã. Não é Deus que diz que incesto é pecado? Mas de que me adiantaria me preocupar, eu sou o pecado em pessoa... mas Deus sabe que eu tentei. Eu tentei ser diferente mas eu nasci assim. Eu não seria burro o suficiente pra escolher nascer assim. Ninguém é. Minha vida seria muito mais fácil se eu fosse normal... mais fácil e alegre ainda se sua mãe estivesse viva e se você me amasse, porque...

— BASTA, PAI! — A voz de Xavier ecoou. Todo mundo ficou em silêncio, e então, o garoto chorou. Levantou-se, foi até o seu pai, e lhe deu um abraço, talvez o primeiro, mas omais forte que já dera em alguém;

— Xaxá... — Djeanny empalideceu, mas retribuiu o abraço, carinhosamente.

— Você sempre foi e sempre será o meu pai, o único que eu tenho, o único que eu desejo como pai, e o único que eu amo. Nunca mais abra essa sua boca suja de batom pra falar essas merdas que você tava dizendo. Eu te amo, pai. Para mim você é tão normal quanto qualquer outro pai, ganha a vida do modo que você acha melhor, e eu sei que você faz porque precisa. Eu te peço perdão, pai, se te nunca apoiei, nem me aproximei de você, se nunca confiei em você ou te levei a sério, mas saiba que o problema nunca foi você. O problema sempre foi eu. Eu invejo a sua coragem, a sua auto-estima, de ser quem você é e foda-se o resto. Você é o melhor pai do mundo, e ao meu modo... tenho muito orgulho de você.

Todos choraram. É, foi lindo, eu sei.

E não, não foi o Eu Lírico de Xavier, foi ele mesmo.

— Filhote... — Djeanny limpou as lágrimas, e sorriu, e talvez pela primeira vez em anos, Xavier ficara feliz. E então, adotou uma postura séria.

— Está decidido pai. Eu, Melissa e Gui iremos recuperar sua peruca.

— COMO É? — Gui caiu da cadeira, enquanto Melissa deu um grito de empolgação.

— Finalmente, Xavier, você está agindo como um homem. — Ela disse, e ele corou. Gui interrompeu o momento constrangedor ao tentar se levantar e quase derrubar a mesa no processo.

— Bom... — o ele disse — Precisamos de um plano, Xavier... E precisamos da ajuda do seu pai.

— Vocês enlouqueceram? Não devem se meter nunca com travestis. Eles podem matar você, filho...

— Pai, nós iremos recuperá-lo. Nada que você possa dizer irá me fazer mudar de idéia.

— Senhor... — Melissa começou — Ou senhora, enfim. Eles a humilharam. Acho que você precisa revidar. Sabemos o quanto a peruca significa para você, e se nós três nos unirmos, creio que nada pode dar errado.

— Não... — Djeanny tinha tristeza no olhar — Vocês vêem filme demais. São tão ingênuos... Travestis são como traficantes. Eles matam. Sem dó. Vocês não vão correr esse risco, essa é minha palavra final... Agora, por favor, se me dão licensa... Xaxá, vou roubar alguns clonazepam seus e dormir loucamente.

Djeanny se retirou, mas o brilho no olhar de Xavier era intenso.

— Se papai não quer ajudar, que assim seja. Temos que pedir ajuda à outro alguém.

— Ai Meu Deus, Caxuxo. — Melissa levantou-se da cadeira — Que outro alguém?

Xavier sorriu maliciosamente.

Continua...

2 comentários:

  1. História bastante interessante... quando vai postar a saga de Xaxá para resgatar a peruca de seu pai???

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  2. Só uma dúvida, o que quer dizer com "limites doentios do cérebro humano"?

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